Boicote a Israel pelos direitos dos palestinos

Campanha contra produtos israelenses ganha adesões

OMAR BARGHOUTI THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

A despeito do cerco à Faixa de Gaza por Israel e da escalada de remoções no Neguev e em Jerusalém Oriental, os palestinos têm um motivo para comemorar.

Em Washington, uma cooperativa alimentícia aprovou uma resolução pedindo o boicote de produtos israelenses, confirmando que o movimento de sabotagem - que completou cinco anos no mês passado - finalmente cruzou o Oceano Atlântico.

O apoio à medida veio de figuras proeminentes entre as quais os ganhadores do Prêmio Nobel da Paz, Desmond Tutu e Mairead Maguire, e Richard Falk, inspetor especial das Nações Unidas nos territórios palestinos.

O movimento por boicote, desinvestimentos e sanções (BDS) foi lançado em 2005, um ano após a Corte Internacional de Justiça, em Haia, ter considerado ilegal a construção de um muro de separação e de colônias judaicas nos territórios palestinos ocupados. Mais de 170 partidos, movimentos de massa, ONGs e sindicatos palestinos endossaram o movimento que é liderado pela BNC, uma coalizão de organizações da sociedade civil.

Enraizada em um século de resistência civil palestina, e inspirada na luta antiapartheid, a campanha coroou boicotes parciais anteriores, oferecendo uma abordagem abrangente para realizar a autodeterminação palestina: unificar palestinos dentro da Palestina histórica e no exílio diante de uma fragmentação acelerada.

O BDS evita a prescrição de alguma fórmula política particular e insiste no cumprimento dos direitos básicos sancionados pelas Nações Unidas que abarcam os três segmentos principais do povo palestino: fim da ocupação e colonização por Israel de todas as terras árabes ocupadas desde 1967; fim da discriminação racial contra os cidadãos palestinos; e reconhecimento do direito de os refugiados palestinos voltarem a seus lares, como estipula a resolução 194 das Nações Unidas.

Princípios universais. Criado e guiado por palestinos, o BDS opõe-se a toda forma de racismo, incluindo o antissemitismo, e se ancora nos princípios universais de liberdade, justiça e direitos iguais que motivaram as lutas antiapartheid e pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Caracterizar o sistema de discriminação legalizada de Israel como apartheid - como foi feito por Desmond Tutu, Jimmy Carter e até um ex-procurador-geral israelense - não equipara Israel à África do Sul.

Não há no mundo dois regimes opressivos que sejam idênticos. Antes afirma que a concessão por Israel de direitos e privilégios, segundo critérios étnicos e religiosos, enquadra-se na definição de apartheid estabelecida pelas Nações Unidas.

O BDS teve um crescimento sem precedente após a guerra contra a Faixa de Gaza (entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009) e o ataque à Frota Humanitária, em maio. Pessoas conscientes de todo o mundo parecem ter cruzado um limiar, recorrendo à pressão e não a um apaziguamento ou um "engajamento construtivo" para pôr fim à impunidade de Israel e ao conluio ocidental na manutenção de sua condição de Estado acima da lei.

"Cerquem seu cerco." O grito do poeta palestino Mahmoud Darwish adquire um novo significado nesse contexto. Já que convencer uma potência colonial a considerar pedidos morais de justiça é, na melhor hipótese, ilusório, muitos agora compreendem a necessidade de "cercar" Israel com boicotes, aumentando o preço de sua opressão.

Os integrantes do BDS conseguiram pressionar instituições financeiras nos países escandinavos, na Alemanha e em outros lugares para desinvestirem em companhias que são cúmplices das violações da lei internacional por Israel. Várias centrais sindicais internacionais endossaram o boicote.

Depois do ataque à Frota Humanitária, sindicatos de estivadores de Suécia, Índia, Turquia e Estados Unidos acataram um apelo de sindicatos palestinos para bloquear o descarregamento de navios israelenses.

Os endossos ao BDS por personalidades do mundo cultural como John Berger, Naomi Klein, Iain Banks e Alice Walker, e a avalanche de cancelamentos de eventos em Israel por artistas como Meg Ryan, Elvis Costello, Gil Scott-Heron e os Pixies, aumentaram o perfil internacional do movimento, trazendo-o mais para perto dos meios dominantes ocidentais. O ceticismo sobre seu potencial foi esquecido.

Boycott from Within (Boicote Interno), um movimento de protesto hoje influente em Israel, foi formado em 2009 acatando o apelo do BDS palestino.

Recentemente, começou a tramitar na Knesset (o parlamento de Israel) um projeto de lei que impõe pesadas multas a israelenses que iniciarem ou incitarem boicotes contra Israel. Isso salienta o quanto Israel teme o alcance e o impacto globais do BDS como uma campanha moralmente consistente, não violenta, por justiça. De muitas maneiras, isso confirma que chegou o "momento África do Sul" dos palestinos. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É MEMBRO FUNDADOR DA CAMPANHA "BOYCOTT, DIVESTMENT AND SANCTIONS FOR PALESTINE", É O AUTOR DO LIVRO "BDS: THE CIVIL STRUGGLE FOR PALESTINIAN RIGHTS" BDS: A LUTA CIVIL PELOS DIREITOS PALESTINOS), A SER PUBLICADO NO COMEÇO DE 2011.

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