ENRIQUE MARCARIAN/REUTERS
ENRIQUE MARCARIAN/REUTERS

Boicote à posse de Macri hoje acelera divisão de bancada kirchnerista

Decisão da maior bancada do Congresso de não comparecer à cerimônia é sinal de radicalização e de deserções que podem beneficiar presidente eleito

Rodrigo Cavalheiro , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES

10 de dezembro de 2015 | 02h00

A decisão da maior bancada do Congresso argentino de boicotar a posse de Mauricio Macri ao meio-dia de hoje é sinal de uma radicalização que paradoxalmente pode beneficiar o novo presidente, por vir acompanhada de deserções. A medida foi anunciada ontem por parlamentares fiéis a Cristina Kirchner, que deixa a Casa Rosada após dois mandatos.

O confronto aberto, em princípio, seria prejudicial para Macri, uma vez que sua coalizão, a Cambiemos, tem apenas 90 dos 257 deputados e ele precisa aprovar mudanças econômicas urgentes com ajuda kirchnerista, que tem 117 cadeiras. 

Somados os votos de todos os partidos na oposição, o novo líder conseguiria maioria simples na Câmara. Macri tem promessa de apoio, pelo menos no início do mandato, dos deputados que seguem o peronista dissidente Sérgio Massa – 36 cadeiras. 

No Senado, entretanto, a Frente para a Vitória, coalizão chefiada por Cristina e derrotada com Daniel Scioli, aumentou seu domínio e tem 42 dos 72 assentos. Isso obrigará o futuro presidente a buscar votos na nova oposição, o que parecia difícil com o kirchnerismo coeso.

A radicalização dos políticos mais próximos a Cristina tende a beneficiar Macri porque nem todos os integrantes do peronismo (do qual o kirchnerismo é uma corrente) estão convencidos a continuar seguindo a presidente – um emissário de Cristina anunciou, na terça-feira, que ela não iria à posse hoje. “Comparando a um casamento, estamos num momento em que saberemos se o matrimônio se manterá ou haverá um divórcio”, disse o sociólogo Ricardo Rouvier.

 A discussão sobre o lugar e a forma da cerimônia – Cristina queria passar a faixa no Congresso e Macri, na Casa Rosada – parece ter precipitado a cisão de forças heterogêneas que compõem a base da ex-presidente, que deixou o poder à meia-noite de ontem por uma inédita ação judicial pedida por Macri. Ele temia alguma surpresa durante a manhã de hoje, antes de fazer o juramento. Ele receberá a faixa e o bastão presidencial de Federico Pinedo, correligionário que estará no comando do Senado. 

A deserção começou com um grupo de deputados da Província de Salta, que desafiou a chefe e prometeu comparecer à cerimônia. Em seguida, uma lei que Cristina queria ver aprovada no Senado ainda ontem não contou com quórum de seus próprios integrantes, numa votação considerada fácil.

Boa notícia. Uma das principais preocupações de Macri, além da governabilidade, é cumprir a promessa de liberar o câmbio, controlado pelo Banco Central desde 2011. Ele não conseguiria começar o processo se o kirchnerista Alejandro Vanoli permanecesse no comando da instituição até 2019. Pressionado por uma ação judicial iniciada pelo grupo de Macri, Vanoli apresentou ontem sua renúncia. O escolhido para a função é o economista Federico Sturzenegger. 

Além de ter alguém de confiança à frente do BC, Macri precisará incrementar as reservas em dólar, hoje em US$ 25,1 bilhões. Para voltar a ter acesso ao mercado de crédito internacional em boas condições e atrair investidores, Macri enviou aos EUA uma equipe para negociar com os fundos abutres, apelido dado pelo kirchnerismo aos credores que não aceitaram a renegociação da dívida argentina.

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