Andy Haslam/The New York Times
Andy Haslam/The New York Times

Boicote ao dinheiro: museus rejeitam milhões de família ligada a opioide

Tradicionais mecenas de instituições de arte e ensino, os Sackler são também donos da Purdue Pharma, fabricante da Oxicodona, um analgésico inovador, extremamente lucrativo e frequentemente usado em excesso

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2019 | 11h21

NOVA YORK - Nesta semana, em Londres, visitantes do Old Royal Naval College puderam acessar seu renovado "painted hall", um incônico espaço adornado com pinturas barrocas comumente chamado de a "Capela Sistena britânica". Depois, foram até a nova Galeria Sackler, onde podem conhecer a história desta obra.

Em Paris, no Louvre, amantes da arte persa sabem que só há um lugar que não podem deixar de ver: a Ala Sackler de Antiguidades Orientais. Quer encontrar uma longa fila para ver o Templo de Dendur no Metropolitan Museum of Art, em Nova York? Siga para a envidraçada Ala Sackler.

Por décadas, a família Sackler apoiou generosamente museus em todo o mundo. Isso sem falar as várias instituições médicas e educacionais que receberam dinheiro deles, como a Universidade Columbia, onde há um Instituto Sackler, ou Oxford, onde há uma biblioteca Sackler.

Agora, no entanto, algumas destas instituições estão reconsiderando se continuarão ou não a aceitar o dinheiro dos Sackler enquanto que outras já prometeram rejeitar qualquer doação futura após concluir que os laços da família com a crise dos opioides superaram os benefícios de seus cheques de seis e, às vezes, sete dígitos.

Em um notável revés a uma das dinastias filantrópicas mais proeminentes do mundo, os prestigiados museus Tate em Londres e o Solomon R. Guggenheim em Nova York, onde um Sackler permaneceu no conselho por muitos anos, decidiram na semana passada que não aceitarão mais doações de seus antigos benfeitores. 

A National Portrait Gallery da Grã-Bretanha também anunciou que havia decidido conjuntamente com a Sackler Trust cancelar uma doação planejada de US$ 1,3 milhão, e um artigo no The Art Newspaper revelou que um museu no sul de Londres devolveu uma doação de família no ano passado.

Em nota, o Tate destacou o "histórico filantrópico" da família e acrescentou: "No entanto, nas circunstâncias atuais, não achamos certo buscar ou aceitar mais doações dos Sackler".

Outros beneficiários, incluindo o Metropolitan Museum e a Academia de Ciências de Nova York, estão revisando suas políticas de doação como resultado de ações legais e de publicidade em torno da família e de sua empresa, a Purdue Pharma, fabricante da Oxicodona, um analgésico inovador, extremamente lucrativo e frequentemente usado em excesso. 

A Universidade Tufts, que tem uma escola de graduação com o nome Sackler, anunciou na segunda-feira que contratou um ex-promotor federal de Massachusetts para investigar o relacionamento da instituição com a família.

Também na segunda, à medida que o constrangimento aumentava a cada novo anúncio, um fundo e uma fundação da família Sackler na Grã-Bretanha divulgou uma nota em que anunciou a suspensão das atividades de filantropia no momento.

“A atenção da imprensa gerada por esses processos judiciais nos Estados Unidos causaram uma imensa pressão sobre instituições científicas, médicas, educacionais e artísticas - grandes e pequenas - aqui no Reino Unido, que eu tenho muito orgulho de apoiar”, disse Theresa Sackler, presidente da Fundo Sackler, em um comunicado. "Essa atenção os está distraindo do importante trabalho que eles fazem."

Embora o potencial de abuso da Oxicodona seja conhecido há duas décadas, só recentemente a família controladora da Purdue passou a ser analisada intensamente. Seu papel na comercialização da droga, apesar de seus perigos, foi o foco de artigos nas revistas The New Yorker e Esquire em 2017.

Documentos apresentados no tribunal este ano em uma ação sugerem que, longe de serem espectadores da epidemia, os membros da família direcionaram os esforços da empresa para induzir o público e os médicos ao erro sobre os perigos de abusar da Oxicodona. Os Sacklers negam as acusações e, na segunda-feira, um porta-voz da família nos Estados Unidos disse em um comunicado:

“Embora as reclamantes nos autos tenham criado um quadro errôneo e resultaram em críticas injustificadas, continuamos empenhados em desempenhar um papel substantivo na abordagem desta complexa crise de saúde pública. Nossos corações estão com as pessoas afetadas pelo abuso ou dependência de drogas.”

Outros desafios

A rejeição à família também foi além do mundo cultural. O Wall Street Journal informou este mês que um fundo de hedge, a Hildene Capital Management, disse no ano passado que não administraria mais o dinheiro da família Sackler. Brett Jefferson, presidente da Hildene, disse ao jornal que "uma tragédia relacionada ao opioide afetou uma pessoa com um relacionamento pessoal comigo e com outros membros da Hildene".

Mas para museus e outras organizações sem fins lucrativos, rejeitar um patrono regular é um passo muito mais sério, dada a sua dependência de grandes doações. Alice Bell, diretora de comunicações da 10:10 Climate Action, uma instituição de caridade com sede em Londres, disse que cortar relações com a família Sackler no ano passado significou reduzir 40% de seu orçamento.

"Certamente houve cortes", disse Bell. A instituição de caridade considera que tomou a decisão correta, mas, no entanto, "tem sido frustrante ver as ideias que poderíamos ter começado a trabalhar em ações do mundo real não deixarem de ser esboços em nossos computadores".

As duas organizações dos Sackler no Reino Unido que anunciaram a suspensão de suas atividades de filantropia doaram quase US$ 160 milhões entre 2012 e 2017, segundo registros dessas operações. 

Nos EUA, as várias fundações dos Sackler doaram vários milhões de dólares nas últimas duas décadas, com um histórico que data de muito antes da criação da Oxicodona, um argumento usado por algumas instituições ao defender suas decisões de não se distanciar dos Sackler nem de mudar o nome de seus prédios e alas.

O escrutínio dos Sackler ocorre em meio a uma avaliação mais ampla no mundo dos museus sobre quem se ocupa suas diretorias e financia seus programas. Adrian Ellis, diretor da AEA Consulting, que trabalha com organizações sem fins lucrativos nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha e em outros países, disse que as rejeições ao dinheiro dos Sackler pressionariam outros museus a declarar quais fundos aceitarão ou não.

Na Grã-Bretanha, houve campanhas contra o patrocínio da petroleira BP a exposições, enquanto em Nova York houve protestos contra o Museu Whitney porque seu vice-presidente, Warren Kanders, administra uma empresa que fabrica gás lacrimogêneo que é usado para repelir migrantes que tentam cruzar a fronteira do México com os EUA.

Também é notório que os museus britânicos foram mais rápidos ao se distanciar de membros da família Sackler do que seus colegas nos EUA, onde os opioides, incluindo a Oxicodona, são prescritos com muita frequência e a crise foi muito mais devastadora, causando mais de 200 mil mortes nas duas últimas décadas por overdose.

Algumas instituições dos EUA, incluindo o Metropolitan Museum e a Columbia, disseram que revisaram, ou estão revisando, suas políticas à luz das alegações contra membros da família Sackler, mas não declararam que rejeitariam suas doações no futuro. "Nós reavaliamos a aceitação de doações de filantropia da família Sackler e não estamos recebendo nada deles no momento", disse Scott Schell, porta-voz da Columbia.

Um porta-voz da Metropolitan Opera House de Nova York, que recebeu pelo menos US$ 1 milhão do Fundo Raymond e Beverly Sackler para as Artes e Ciências, disse que "não há contribuições significativas sendo feitas para a instituição por nenhum membro da família Sackler ou suas fundações”.

A Dia Art Foundation e o Museu Americano de História Natural, que juntos receberam milhões de fundações ligadas ao irmão de Raymond e Mortimer Sackler, não responderam aos pedidos de comentário (o terceiro irmão que fundou a empresa, Arthur Sackler, morreu antes da criação da Oxicodona e sua parte foi comprada por seus irmãos, um argumento frequentemente citado por museus que receberam dinheiro de Arthur ou de seus herdeiros). / NYT

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