Boicote de Obama aos ditadores africanos

Fórum pelos 50 anos de independência de 17 países do continente deixa os líderes da região de fora

Adam Nossiter The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

Muitos líderes africanos passaram parte do verão viajando entre as capitais, congratulando-se pelos 50 anos de independência. Uma capital que não visitarão é Washington.

O presidente Barack Obama organizou um fórum esta semana para comemorar os 50 anos de independência de 17 países da África, mas não convidou um único líder africano para ajudá-lo. Seria, como disseram jornais africanos, uma mostra da sua repugnância por governantes corruptos? Foi uma confirmação das próprias convicções de Obama - já enunciadas - de que os maus governos estão no centro das dificuldades do continente e a "África não precisa de homens fortes, mas de instituições fortes"? O Departamento de Estado negou qualquer intenção por trás desse fórum, observando que as autoridades tinham se reunido com líderes africanos em outras oportunidades.

Mas analistas africanos e do Ocidente sublinharam o nítido contraste entre o evento em Washington e as comemorações dos 50 anos de independência africana numa outra capital ocidental: Paris.

Durante as celebrações da Queda de Bastilha, em 14 de julho, na França, o presidente Nicolas Sarkozy tinha ao seu lado os líderes da República dos Camarões, Paul Biva, e Burkina Fasso, Blaise Compaore, que vêm sendo duramente criticados por seu desprezo pelos direitos humanos e seus maus governos, enquanto que 11 outros chefes de Estado africanos, alguns com antecedentes também duvidosos, juntaram-se a ele na tribuna.

Ali eles assistiram a um desfile de soldados dos Exércitos africanos, entre eles muitos que participaram de abusos nesses países na década passada. A imprensa senegalesa criticou duramente o evento. Não só censurou os líderes africanos por atender ao chamado do antigo colonizador, mas também atacou Sarkozy por acolher presidentes que maltratam seus concidadãos.

Ao contrário do presidente francês, Obama não corre risco de ser fotografado na companhia de líderes acusados de desrespeitar a democracia e os direitos humanos. Pelo contrário, ele convocou 115 pessoas com menos de 35 anos, entre cidadãos comuns, jornalistas e homens de negócios para um Fórum com Jovens Líderes Africanos, para ajudá-lo a "pensar no futuro".

Na terça-feira, Obama discutiu sem rodeios com esses jovens questões como corrupção e liberdade de imprensa, dizendo que "às vezes os líderes mais velhos adquirem antigos hábitos que são difíceis de quebrar".

Questionado sobre o presidente Robert Mugabe, do Zimbábue, Obama disse aos jovens presentes: "Serei honesto com vocês - fico com o coração partido quando observo o que vem ocorrendo no Zimbábue. Acho que Mugabe é o exemplo de um líder que surgiu como um combatente pela libertação e - serei muito duro - não o vejo servindo bem seu povo. E os abusos dos direitos humanos, a violência cometida contra líderes de oposição, acho isso terrível."

Para organizações de notícias africanas, o fórum tem mais a ver com a criação de líderes do que com aquelas pessoas que convidou, teria sido uma espécie de censura dirigida à geração mais velha.

No Senegal, a manchete do jornal Walfadjri foi esta: "Obama ignora Wade e companhia e desenrola o tapete para a sociedade civil", referindo-se ao presidente Abdoulaye Wade. Mas uma associação com Obama é tão desejada a ponto de o governo de Wade ter colocado um comunicado na capa de um jornal local dizendo que o presidente senegalês tinha conversado com o presidente americano pelo telefone, mas não foi divulgado o conteúdo da conversa. "O presidente americano é extremamente sensível à questão da democracia", disse outro jornal senegalês, o Kotch. "Prova disso: ele vai celebrar os 50 anos de independência das nações africanas sem convidar um único chefe de Estado."

Obama fez um apelo aberto para que haja uma maior difusão da democracia no continente. Num discurso diante do Parlamento de Gana em 2009, ele declarou ser uma "verdade fundamental" o fato de "o desenvolvimento depender de uma boa governança. Esse é o ingrediente que foi esquecido em muitos lugares e por muitos anos". Segundo Obama, cabia aos próprios africanos adicionar esse "ingrediente".

A escolha feita pelo presidente americano foi recebida com silêncio nos palácios presidenciais africanos. Mas claramente ela tem potencial para melindrar. Os governos que não conseguiram uma legitimidade interna no continente com frequência adquirem credibilidade por meio de reconhecimento internacional, reunindo-se e sendo recebidos por outros chefes de Estado.

"O reconhecimento internacional dá aos dirigentes de Estado africanos um poder doméstico de comando", escreveu Pierre Englebert, professor de política no Pomona College, em seu recente livro: Africa: Unity, Sovereignity & Sorrow (África: unidade, soberania e sofrimento). Assim, a ausência de presidentes e suas comitivas na reunião de Washington não é vista como um acaso.

"Ao rejeitar convidá-los e recebê-los em Washington, Obama diz claramente a eles: "se querem participar ao nosso lado, vocês têm de se comportar melhor"", disse Mamadou Diouf, diretor do Instituto de Estudos Africanos, na Universidade Columbia. "É uma maneira também de questionar a decisão tomada por Sarkozy."

Outros analistas concordam. "Você olha Sarkozy e seus amiguinhos, não é essa a imagem que Obama quer passar", disse J. Stephen Morrison, especialista em assuntos africanos no Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos em Washington. Um funcionário do Ministério das Relações Exteriores francês rejeitou as críticas generalizadas à posição de Sarkozy, considerando-as "polêmica estéril".

"As duas iniciativas são complementares", disse o funcionário, referindo-se aos dois enfoques, de Sarkozy e de Obama. "Um país não pode ser reduzido apenas aos seus líderes e à sociedade civil. Para uma democracia funcionar, você precisa de ambos.

Quanto ao povo de modo geral, a decisão de Obama de realizar esse fórum foi "saudada pela opinião pública africana", disse o líder de oposição senegalês, Abdoulaye Bathily, "porque as forças emergentes não estão na liderança, mas nos movimentos da sociedade civil". E ele acrescentou: "Os líderes traíram o povo africano." / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE NO SENEGAL

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