Boicotes anti-França perdem força na China

Volume de compras no Carrefour e falta de grandes manifestações sugerem que fúria nacionalista está minando

Andrew Jacobs, do The New York Times,

01 de maio de 2008 | 12h33

Eles vieram. Expressaram seu fervor patriótico. E então fizeram compras. Nesta quinta-feira, 1º, o primeiro dia de um boicote planejado contra a rede de lojas de departamento francesa Carrefour, havia alguns discretos protestos ao redor da China, mas a maioria das lojas registraram boas vendas de azeite, aperitivos e embalagens tamanho família de suco de lichia.  O chamado ao boicote, publicado através de mensagens de textos e sites populares, pede que os consumidores chineses evitem as lojas como forma de punir a França pelo que a China considerou uma 'recepção pobre' da tocha olímpica. Durante a passagem da tocha por Paris no mês passado, manifestantes pró-Tibete tentaram arrancar a tocha de Jin Jing, um atleta deficiente físico que a carregava sentado em uma cadeira de rodas. As imagens do momento que capturaram sua expressão de choque alimentaram um movimento contra os países ocidentais, que muitos chineses acreditam estar querendo estragar o momento de glória das Olimpíadas chinesas enquanto Pequim se prepara para receber os jogos.  O fato de o Conselho da Cidade de Paris ter tornado o dalai-lama, líder espiritual do Tibete exilado, um cidadão honorário não ajudou. Muitos chineses acreditam que o dalai-lama foi responsável pelos protestos anti-China no Tibete no mês passado.  Nesta quinta, o início do feriado nacional de três dias, foram registrados diversos pequenos protestos em lojas do Carrefour ao redor do país, mas a ausência de grandes manifestações, unida à grande quantidade de compradores despreocupados, sugerem que a fúria nacionalista pode estar minando. "Política é uma coisa, mas as pessoas precisam comer", disse Zheng Wu, 55 anos, uma dona de casa de Pequim cujo carrinho de supermercado estava carregado com 12 rolos de papel higiênico, dois grandes sacos de arroz, uma caixa de cereais e três pares de sandálias rosas.  O governo já vem trabalhando para acabar com as manifestações anti-França. Nos últimos dias, autoridades foram à televisão para lembrar que 40 mil empregados nas 112 lojas do Carrefour pelo país são chineses. Editoriais de jornais afirmaram que o passado deve ser deixado de lado, pedindo aos cidadãos que recebam de braços abertos seus amigos estrangeiros, dos quais 1,5 milhões chegarão ao país em agosto para as Olimpíadas. "Nós sorrimos ao mundo", dizia o título de um editorial no People's Daily, celebrando a contagem regressiva de cem dias para os jogos.  Caso isso não funcionasse, a censura do governo dificultou a divulgação dos protestos. Nos últimos dias, algumas mensagens que anunciavam o boicote foram bloqueadas; nesta quinta, digitar Carrefour em chinês na internet levava a páginas em braço explicando que esses resultados "não se encaixam em políticas e leis relevantes". Ainda assim, alguns protestos levaram centenas de pessoas às lojas do Carrefour em Xian, Changsha, Shenyang e Chongqinga. Mesmo assim, a polícia se certificou de que as manifestações fossem breves. Uma demonstração em Fuzhou contou com 400 pessoas, segundo a agência de notícias Xinhua, com estudantes levando bandeiras da China e cartazes que diziam "Não à Independência do Tibete" e "Amor à China". As autoridades dispersaram rapidamente as aglomerações e levaram aqueles que se recusaram a ir embora, segundo a Xinhua.  Em Pequim, onde há nove lojas do Carrefour, funcionários da rede afirmaram que os protestos estavam notadamente mais vazios, especialmente para um feriado. O único protesto registrado na cidade foi em um Carrefour perto do bairro universitário, onde apesar da forte presença policial, um jovem foi à entrada da loja levando um cartaz que dizia "Boicote o Carrefour, Denuncie a CNN". (A referência à CNN reflete a raiva popular contra o que China considera a cobertura ruim da rede de notícias sobre os protestos no Tibete). O homem, que usava uma máscara branca e uma camiseta com slogans nacionalistas, foi rapidamente retirado pela polícia. Algumas pessoas pegaram seu cartaz e lutaram contra a polícia para mantê-lo à vista. Espectadores assistiam à cena com gritos de "Vai China!" e "Vai Pequim!" Mas enquanto algumas centenas de pessoas olhavam com curiosidade, a polícia conseguiu retirar o cartaz e levou diversos jovens às viaturas. Depois, ordenaram que a multidão se dispersasse, alegando a segurança de todos. Do outro lado da cidade, os compradores de outra loja do Carrefour estavam felizes em encher seus carrinhos sem interferências. Diversos idosos afirmaram não ter visto a convocação ao protesto, mas outros, claramente intimidados pelas perguntas do repórter, insistiram que só estavam lá para comprar itens de necessidade básica. "Nós devemos nos opor aos ocidentais que tentam derrubar a China", disse Li Chen, 22 anos, estudante de biologia, quando deixou a loja com suas compras da semana. Ele, então, abriu suas sacolas para provar que evitou comprar produtos estrangeiros. Perguntado sobre as garrafas de Pepsi, ele disse: "Atualmente, tudo é fabricado na China". Muitos compradores, porém, afirmaram ser contra os protestos e condenaram aqueles que, segundo eles, fomentam a xenofobia em uma época em que a China deve abraçar o mundo exterior. Guo Sheng Zhang, 26 anos, que recentemente deixou seu trabalho em um hotel, disse que um boicote iria apenas prejudicar a imagem da China e potencialmente acabar com as Olimpíadas. "Isso é tão burro", disse. "Estamos apenas nos prejudicando. E quanto aos trabalhadores chineses que vão perder seus empregos?"

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