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Gilles Lapouge
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Boko e 'Charlie'

Em Paris, os jornalistas de um pequeno semanário satírico são assassinados por jihadistas. Todo o planeta entra em pânico, comove-se, indigna-se. Mais ou menos ao mesmo tempo, na nação mais populosa da África, a enorme Nigéria (173 milhões de habitantes), os homens do Boko Haram dedicam-se a um massacre. Em dez dias, são assassinadas 2 mil pessoas (homens, mulheres e crianças). A terra está coberta de cadáveres. Alguns despachos nos informam, com atraso, deste horror.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2015 | 02h05

A diferença é explicável. Paris é uma das grandes capitais do mundo. Quando ela é atingida, é o próprio coração do Ocidente que repentinamente se encontra sob o fogo dos assassinos.

Por outro lado, quem conhece a Nigéria? Distinguimos com dificuldade num mapa seus imensos desertos e florestas. A Nigéria ocupa o coração da África e o terror grassa ali há anos. De tempos em tempos, recebemos notícias deste lugar distante: 276 estudantes nigerianas são capturadas pelo Boko Haram e levadas como escravas; os milicianos do grupo patrulham as zonas mais afastadas do norte e matam, simplesmente por passatempo.

A situação dura há cinco anos e foi suficiente para que o grupo, que se declara islâmico fundamentalista, se apropriasse de um território imenso.

Os chefes desta seita não escondem a ambição de constituir um califado, tão implacável e tão forte quanto o Estado Islâmico, ou Daesh. No entanto, a comparação com o califado da Síria e do Iraque não se sustenta. O Daesh não é só extremamente rico. Ele também possui uma tropa numerosa, aguerrida, bem comandada, dotada de estratégia e crueldade total, capaz de fazer frente a exércitos modernos.

Não é o caso do Boko Haram, cuja força se alimenta, na realidade, da debilidade dos seus adversários. Os recursos de que o Boko Haram dispõe são irrisórios. Quando seus algozes atacam uma aldeia, eles viajam numa motocicleta. Nada de blindados.

Dois exércitos têm a missão de conter os matadores desordenados do Boko Haram: uma Unidade Operacional Internacional, de um lado, e, do outro, o próprio Exército nigeriano. Mas as forças da unidade operacional internacional são totalmente ineficazes. Quanto aos soldados nigerianos, eles padecem de três inconvenientes. O primeiro é a miséria. Foram desbloqueados fundos internacionais, que entretanto são repassados de bolso em bolso e jamais chegam aos dos militares combatentes. O segundo, é que estes soldados não têm muita vontade de combater. O terceiro é que o Exército não tem o menor apoio da população nigeriana.

Esta falta de apoio é dramática. O Exército nigeriano estuprou demais, matou e massacrou os civis a ponto de estes nem quererem ouvir falar dessas tropas. "O Exército é formado por mercenários", diz um especialista. Não será seguramente o aumento do número desses mercenários que exterminará o Boko Haram. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILA

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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