Boko Haram quer explorar incerteza política

Se o candidato derrotado não aceitar o resultado, deve surgir nova onda de violência que será aproveitada pelo grupo

O Estado de S.Paulo

29 Março 2015 | 02h00

O destino da Nigéria, sob a ameaça do grupo terrorista Boko Haram, não está tanto nas mãos do candidato vitorioso nas eleições presidenciais realizadas ontem, quanto na percepção, entre a população, da legitimidade de seu governo. Na opinião de especialistas ouvidos pelo Estado, a votação mais disputada da história da Nigéria pode levar a nova onda de violência e ataques na Nigéria.

"Tudo depende de se aquele que perder aceitar os resultados. Se houver contestação ou suspeita de fraude, há grande possibilidade de que uma onda de violência tome o país e o Boko Haram certamente saberá explorar essa situação em seu favor", disse ao Estado o diretor do centro de análise sobre África, do centro de estudos Conselho Atlântico, Peter Pham.

Violência. Em 2011, suspeitas de fraude e o resultado nas eleições em favor de Goodluck Jonathan levou a uma onda de violência que deixou mais de 800 mortos e serviu de combustível para o Boko Haram. Muitos nigerianos no norte e, principalmente, no nordeste, reduto do grupo terrorista, veem o governo de Jonathan como ilegítimo.

"O ambiente pós-eleitoral será definido amplamente pelo senso de legitimidade do governo vitorioso", afirmou à reportagem Sarah Chayes, que acompanha as eleições na Nigéria para o Carnegie Endowment for International Peace. "Se a Nigéria eleger um governo que pareça mais legítimo e mais disposto a responder às necessidades da população, acho que veremos o recrutamento de jovens para o grupo secar. Ao mesmo tempo, se Jonathan vencer ou declarar vitória, acredito que haverá confrontos. O Boko Haram se fortalece do ambiente de ilegitimidade política."

Para Lisa Otto, especialista em Nigéria, do Instituto Sul-Africano de Relações Internacionais, uma onda de violência pode emergir no rastro das eleições, independentemente do resultado final. "É altamente provável que haverá focos de violência no rastro dessas eleições, por ser uma das mais disputadas da história da Nigéria"disse Lisa ao Estado.

Lisa acredita, no entanto, que uma vitória de Buhari pode apaziguar os ânimos no país. "Como candidato muçulmano, sua vitória pode servir para acalmar o norte, uma área que tem se sentido excluída, pois o acordo não oficial de rotatividade entre cristãos e muçulmanos no poder não foi respeitada nas últimas eleições", afirmou. "Mas é preciso lembrar que a elite política no governo tem muitos interesses econômicos e pretende protegê-los de forma egoísta."

Como muçulmano, seria esperado que uma vitória de Buhari também agradasse ao Boko Haram, mas o candidato tem sido um dos maiores críticos do grupo, que ele chama de "impostores disfarçados de muçulmanos". Em julho, Buhari sobreviveu a um ataque a bomba contra sua comitiva. O Boko Haram assumiu a responsabilidade pelo atentado.

"A eleição de um muçulmano não abre necessariamente as portas para a criação de um califado islâmico", afirmou Lisa. /A.C.

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