Boko Haram só teme fim da pobreza

No norte da Nigéria, dominado pelo grupo radical, 70% vivem com menos de US$ 1 dólar por dia; miséria alimenta recrutamento

JOSHUA, KEATING, , SLATE, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2014 | 02h04

Em resposta aos protestos contra a incapacidade do governo de recuperar as 223 meninas ainda reféns do grupo radical islâmico Boko Haram, a primeira-dama nigeriana, Patience Jonathan, ordenou a prisão de dois líderes das manifestações, disse duvidar que tenha ocorrido um possível sequestro e acusou os detidos de pertencerem àquela organização.

O mínimo que podemos dizer é que a reação da primeira-dama, que tem muita influência política, mesmo sem ter uma posição oficial, não contribui para criar a confiança na capacidade do governo de resolver a crise. As meninas estão desaparecidas há três semanas e num novo vídeo divulgado nesta semana o comandante do Boko Haram, Abubaker Shekau, anunciou planos de vendê-las.

O sequestro das garotas chamou a atenção internacional para a longa luta da Nigéria contra a organização terrorista, bem como para o fato de que até agora os esforços para combatê-la não foram eficazes.

A polícia e o Exército reprimiram duramente o grupo em 2009, prendendo seu líder original, Mohammed Yusuf - que mais tarde foi morto, supostamente durante uma tentativa de fuga. O movimento logo se recompôs e retomou as atividades mais poderoso e letal do que nunca.

Nas palavras de um especialista em contraterrorismo, ações subsequentes visando membros do grupo "não tiveram nenhum sucesso, mas inflamaram ainda mais a opinião pública contra o governo". No processo, o Exército nigeriano foi acusado de também cometer atrocidades, incluindo o assassinato de centenas de detentos. Os esforços para uma negociação com o Boko Haram também não tiveram resultado - a organização dividiu-se em diversos grupos e os que participaram das conversações com o governo sofreram represálias violentas de outros membros.

O Boko Haram não é o primeiro grupo insurgente a se enraizar no norte da Nigéria e é provável que a violência religiosa continue a assombrar a região se não forem adotadas medidas para solucionar os problemas da pobreza, desigualdade e corrupção que a alimenta.

O grupo terrorista tem por meta acabar com a influência ocidental no país e estabelecer a sharia (lei islâmica), mas basicamente é também um movimento de indignação da população do norte com a persistente privação e pobreza na sua região.

Distribuição. Predominantemente muçulmano, o norte da Nigéria ficou excluído do progresso econômico recente do país. Na região onde o Boko Haram tem sua base, no nordeste do país, 70% das pessoas vivem com menos de US$ 1 por dia, em comparação com os 50% no sul. O analfabetismo, a desnutrição e problemas de infraestrutura são muito mais graves no norte.

A percepção generalizada da corrupção política e a sensação de que o norte não se beneficia dos mais de US$ 80 bilhões que o país contabiliza anualmente com suas exportações de petróleo - produzido no sudeste - ajudaram grupos como o Boko Haram a recrutar novos membros.

Um jornalista nigeriano que entrevistou líderes do grupo, Ahmad Salkida, descreveu em 2012 a organização terrorista à ONG Human Rights Watch: "A corrupção tornou-se um catalisador para o Boko Haram. Teria sido difícil para Mohammed Yusuf (o primeiro líder do grupo) atrair muita gente para sua órbita se estivesse operando num Estado em bom funcionamento. Mas a pregação do grupo é facilmente aceita porque o ambiente, as frustrações, a corrupção e a injustiça tornaram o terreno fértil para a ideologia extremista ser difundida rapidamente, como um incêndio florestal".

No momento, em meio à frustração crescente da população, o governo de Goodluck Jonathan tem como tarefa imediata salvar as centenas de garotas de um destino aterrorizador.

No longo prazo, tanto a repressão mais firme quanto a contemporização não conseguirão sufocar o extremismo no norte. A menos que o país, ávido para definir-se como a maior economia da África, adote medidas de fato para combater a pobreza e a corrupção.

Diante das evidências de que o grupo vem-se infiltrando em países vizinhos e aumentou a cooperação com organizações terroristas internacionais, o problema do terrorismo da Nigéria poderá não ficar limitado a esse país por muito tempo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

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