Bolivarianismo não tem futuro sem líder

Desde 11 de dezembro, quando Hugo Chávez se submeteu à quarta cirurgia para extirpar células cancerosas, o fantasma da ausência do líder venezuelano paira sobre o país e toda a América Latina. Não é para menos.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2013 | 02h02

Durante os últimos 14 anos, Chávez dominou seu país e o imaginário da região como ninguém. Tanto seu empenho quanto sua habilidade ao cuidar da revolução bolivariana, sua marca registrada, provocam a inveja dos melhores executivos multinacionais.

Ainda levou sua ardilosa engenharia social e política - combinação de carisma, economia de comando, petrodólares, migalhas para os miseráveis e pau para a dissidência - continente afora. Seu road show acabou cativando acólitos do Caribe aos Andes.

Agora é a sua falta iminente - escrevo às cegas, enquanto Chávez oficialmente agoniza no seu leito em Havana - que monopoliza os comentários. Quem poderá levar o socialismo do século 21 para frente? Haverá um próximo Chávez?

Dificilmente. Claro, há algumas versões menores. Evo Morales, líder dos plantadores de coca, alavancou suas origens humildes como dirigente sindical para se tornar para-raio da revolta indígena e camponesa na Bolívia.

Inspirou-se na cartilha chavista e nacionalizou empresas estrangeiras (entre elas a refinaria da Petrobrás) e redigiu uma nova Constituição, aprovada pelo rolo compressor da sua maioria legislativa. No embalo, mandou prender adversários políticos - entre eles, o congressista Roger Pinto, hoje refugiado na Embaixada do Brasil em La Paz -, alguns deles por delitos que nem sequer existiam na época que governavam.

Um exemplo. O ex-presidente do Banco Central da Bolívia Juan Antonio Morales, até pouco tempo em prisão domiciliar, foi acusado de embolsar um bônus salarial (US$ 1 mil por mês), que era legal na sua época, mas acabou transformado em lesa-pátria na gestão de Evo.

Não deixa por menos Rafael Correa, talvez o mais assíduo dos discípulos do chavismo, que elegeu como seu inimigo preferido o jornalismo independente. Com ajuda da maioria parlamentar e de juízes amigos retalhou a Constituição e silenciou a crítica com processos milionários.

Um de seus alvos, Emilio Palacio, colunista do jornal El Universo, fugiu para os EUA, onde ganhou asilo político - mesmo status que Correa concedeu ao "campeão da livre expressão", Julian Assange, do WikiLeaks.

Ainda há Daniel Ortega, da Nicarágua, que fez vista grossa à lei para concorrer a reeleição, contrariando a Constituição e o princípio visceral da democracia, a alternância de poder. Os acólitos absorveram tão bem a lição bolivariana que conseguiram converter o voto livre em senha para esvaziar as demais instituições democráticas. Pois, com o aval das urnas, semearam a autocracia. Até Fidel Castro se disse disposto a disputar eleições para uma vaga no Parlamento cubano.

São todos pupilos exemplares da escola Chávez, mas não há nenhum à altura do mestre, muito menos com seu poderio contábil, regado a petróleo. Que será da grande aliança bolivariana e afins sem os 115 mil barris diários de petróleo vendidos a preços camaradas para Cuba, sem os US$ 500 milhões dos cofres de Caracas destinados à infraestrutura nicaraguense e os petroleiros cheios que driblam sanções internacionais para socorrer o regime pária da Síria?

Correa desdenha das preocupações. "Há muitos líderes extraordinários na região", disse recentemente. No entanto, acrescentou que as "mudanças históricas em nossas nações não vêm dos grandes líderes, mas do povo que disse: Basta!"

Até hoje, com a benesse do comandante, o basta do povo sempre contou com um eco de Caracas. Daqui para frente, com a herança chavista na berlinda, os maiores herdeiros do legado bolivariano arriscam-se a acabar cada um na sua ilha, sem porta-voz e de mãos vazias.

* É COLUNISTA DO 'ESTADO', CORRESPONDENTE DA 'NEWSWEEK' E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUSMAC

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