Bolívia apressa aval para construção de estrada

Referendo em comunidades indígenas de reserva natural deve dar sinal verde nas próximas semanas para obra financiada pelo Brasil na Amazônia

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h04

O governo da Bolívia espera concluir até o fim da semana um referendo sobre a construção de uma estrada - financiada pelo Brasil - que atravessaria a reserva Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Secure (Tipnis), na Amazônia boliviana. O processo, conduzido a toque de caixa pelo governo procura driblar a resistência de lideranças indígenas.

De acordo com analistas consultados pelo Estado, esses grupos são hoje a principal força de oposição ao presidente Evo Morales. A última parcial divulgada pelo governo ao longo da semana indicava que 28 das 29 comunidades consultadas eram favoráveis à construção da estrada.

No total, 69 grupos indígenas que habitam a reserva seriam ouvidos pelo governo. A Confederação dos Povos Indígenas da Bolívia (Cidob), principal grupo contrário à construção da estrada, já organizou duas marchas desde o Tipnis até La Paz nos últimos 12 meses e organizou a resistência à participação de algumas comunidades ao referendo.

A Cidob, que defende o boicote à consulta, alega que a estrada trará danos ecológicos a região. A confederação acusa também o governo de privilegiar plantadores de coca e fazendeiros sem ligações culturais e étnicas profundas com a região.

O governo diz que a estrada, financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e com licitação vencida pela OAS, possibilitará o desenvolvimento da região e o escoamento da exportação de recursos minerais da Bolívia. No ano passado, Evo teve de suspender o projeto após um violento confronto entre policiais e indígenas (mais informações nesta página).

A consulta aos povos nativos está prevista na Constituição aprovada há três anos no país. Para a cientista política boliviana Maria Teresa Zegada, do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social (Ceres), Evo está acelerando o processo de votação para obter uma vitória no referendo. "O governo está anunciando rapidamente as comunidades nas quais obteve respaldo e atropelando o processo de discussão, que deveria ser mais prolongado", diz. "A Cidob tem se oposto ao referendo e desde a marcha do ano passado e a desse ano tem se tornado uma das principais vozes da oposição, não só à estrada como também ao projeto político do MAS (partido de Evo)."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.