Bolívia é antineoliberal e anticorrupção, diz Morales

O presidente da Bolívia, Evo Morales, disse que seu país pretende adotar um governo antineoliberal, com enfoque na distribuição de renda produzida pela exploração dos recursos naturais. Mesmo assim, Morales salientou que a maior luta do povo boliviano não é contra o neoliberalismo, mas contra a corrupção. Durante entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, gravado em La Paz, ele fez elogios ao presidente Lula, que considera o "irmão maior", mas insistiu que não abrirá mão de nacionalizar os recursos naturais e de renegociar os contratos com as empresas que se instalaram naquele país. "Precisamos recuperar os recursos naturais da Bolívia para que sejam a base para a nova política econômica", afirmou. Morales disse que o modelo neoliberal não é a solução para os países da América Latina, pois considera essa política selvagem e excludente. Morales destacou que a nacionalização dos recursos naturais seria a única forma de modificar essa política econômica. "É preciso acabar com a política de concessão e privatização. Os recursos gerados pelos recursos naturais precisam ser investidos na agricultura", frisou. "Portanto, estamos falando de um modelo econômico antineoliberal, em que o Estado se responsabiliza por gerar e planejar o desenvolvimento, além de gerar recursos econômicos provenientes fundamentalmente dos recursos naturais, também no que se refere à agricultura." Petrobras O presidente boliviano voltou a radicalizar o discurso contra a Petrobras. Ele lembrou que a empresa teria uma dívida com o governo de seu país, mas não chegou a especificar de que tipo. "Quero pensar que é uma dívida, quem sabe uma questão econômica, e não uma dívida violando as leis do Estado boliviano. Mas isso será investigado", prometeu. Ele explicou ainda que está sendo feita uma auditoria interna e que não teria condições de antecipar o resultado. "Se querem que eu fale da Petrobras, há muitos problemas. Talvez seja a empresa, não o governo", ressalvou. Ele disse que quer a presença da Petrobras na Bolívia, mas desde que a empresa "respeite a vontade soberana do povo", ou seja, aceite a nacionalização das reservas e a renegociação dos contratos. "O povo, mediante referendo, decidiu nacionalizar e recuperar esses recursos naturais para os bolivianos", ponderou. "Antes era 18% para o povo e 82% para as empresas. Isso é roubo, é saque." Morales garantiu que as empresas com investimentos no país ainda continuarão tendo direito a recuperá-los e obter algum lucro. "Haverá prazos importantes para a negociação de novos contratos. Apenas dessa maneira, podemos garantir que a empresa tenha um lucro mínimo", frisou. Demonstrando que as empresas não terão muita margem para negociação, o presidente foi enfático. "É preciso respeitar a última lei aprovada: as empresas têm que adequar seus contratos à nova lei", sustentou. "Não apenas a Petrobrás, mas as empresas petrolíferas em geral, sempre querem ganhar muito dinheiro e não querem que seus interesses econômicos sejam afetados. Por isso, este é um momento de decisão." EBX Ao ser indagado sobre a questão da segurança jurídica na Bolívia e o respeito aos contratos pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, ele voltou a afirmar que precisa de sócios e não de patrões, no que se refere aos recursos naturais. "As empresas de petróleo, ou de serviços, que se submetem às leis bolivianas terão segurança jurídica. Mas empresas como a EBX têm dois caminhos: abandonar voluntariamente ou serem expulsas." Ele argumenta que a empresa siderúrgica não respeitou as leis bolivianas e se instalou ilegalmente na faixa de fronteira, o que não seria permitido pela constituição local. "Seguramente antes, com um tipo de suborno, puderam se instalar. Mas isso terminou", acusou. Ao ser perguntado sobre os anúncios publicados em jornais de que a siderúrgica cumpre as leis bolivianas, ele negou com veemência: "A empresa EBX não tem licença ambiental e não respeita as normas bolivianas. Lamento muito que essa empresa queira dividir os bolivianos.". Morales acha que as questões envolvendo a Petrobras e a siderúrgica não devem afetar as relações com o Brasil. E concluiu, enfático, o programa gravado no último dia 21 no Palácio Quemado: "Isso (a EBX) não é uma empresa, é uma máfia montada para prejudicar o governo e usar alguns setores para criar conflitos, aproveitando-se de nossos recursos naturais." Matéria corrigida às 9h50

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