Martín Alipaz/EFE
Martín Alipaz/EFE

Bolívia e OEA anunciam auditoria vinculante de eleição presidencial

Chanceler Diego Pary disse que recontagem deve começar nessa semana e que governo acatará resultado; opositor Carlos Mesa rejeita processo 'pactuado unilateralmente entre La Paz e OEA'

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 11h23
Atualizado 30 de outubro de 2019 | 15h57

LA PAZ - A Bolívia e a Organização dos Estados Americanos (OEA) concordaram nesta quarta-feira, 30, em realizar uma auditoria do resultado das eleições presidenciais vencidas em primeiro turno por Evo Morales, informou o ministro das Relações Exteriores Diego Pary, detalhando que o processo deve começar nesta quinta-feira.

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"Concluímos o trabalho de coordenação, concluímos os acordos a serem assinados entre a Bolívia e a Organização dos Estados Americanos, para que a auditoria abrangente das eleições gerais de 20 de outubro possa ser realizada", afirmou Pary em comunicado à imprensa em La Paz.

O ministro das Relações Exteriores acrescentou que a auditoria será "vinculante", ou seja, sua conclusão deverá ser acatada pela OEA e pelo governo boliviano, e "poderá começar na quinta-feira, dia 31" após a chegada de cerca de 30 técnicos da agência multilateral.

"(O acordo garante) a verificação das atas, verificação do processo, de dados estatísticos e da cadeia de custódia dos votos, além do acesso às instalações e as informações que forem solicitadas (pelos técnicos)", completou o ministro.

A apuração da Organização Eleitoral Plurinacional (OEP) deu a vitória a Evo no primeiro turno com 47,08% dos votos contra 36,51% de seu oponente Carlos Mesa, por ter obtido uma vantagem de 10 pontos que, segundo a lei, define o vencedor sem necessidade de um segundo turno.

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Mas, de acordo com as alegações dos adversários, pode ter havido manipulação do sistema de contagem rápida da OEP, que inicialmente previa um segundo turno entre Evo e Mesa. Um segundo sistema oficial de contagem definitiva também apontou a reeleição a Evo, no poder desde 2006. 

Protestos denunciando fraude se intensificaram, com a queima de centros eleitorais, greves e bloqueios enquanto a própria OEA, a União Europeia e os países da região recomendaram uma segunda votação para acabar com as tensões. La Paz negociou com a OEA em busca de ajuda para a questão.

Rejeição da oposição

Em reação nesta quarta-feira, Mesa disse rejeitar a "auditoria eleitoral unilateral" entre o governo de Evo Morales e a OEA. "Nós não aceitamos a auditoria nos termos atuais, pactuados unilateralmente", afirmou em uma declaração à imprensa.

Na terça-feira, este centrista que governou a Bolívia entre 2003 e 2005, disse que só aceitaria a auditoria "se (Evo) estivesse disposto a não aceitar o resultado do Supremo Tribunal Eleitoral".

A auditoria foi sugerida na semana passada pelo presidente boliviano ao secretário-geral da OEA, Luis Almagro, depois de a oposição ter denunciado uma fraude para garantir o quarto mandato de Evo.

Grupos radicais se opõem

A decisão de realizar a auditoria não é compartilhada por alguns grupos civis que lideram há uma semana os protestos em várias cidades do país.

Contrário à auditoria da OEA, o líder do opositor Comitê Cívico de Santa Cruz (leste), Luis Fernando Camacho, propôs anular as eleições.

"A solução é anular as eleições e ir para um novo processo (...) Se o governo aceitar, a greve será suspensa", garantiu Camacho, referindo-se à paralisação em curso nesta localidade do sudoeste boliviano e que também acontece em outras cidades, como La Paz.

Em meio aos protestos, nesta semana foram registrados confrontos em Santa Cruz, La Paz e Cochabamba entre simpatizantes de Evo e de Mesa. Por enquanto, o balanço é de mais de 40 feridos, incluindo 5 baleados.

Diante da escalada da violência, a ONU fez ontem "um apelo clamoroso e urgente aos atores políticos, aos setores sociais e a todas e todos os bolivianos para reduzirem tensões e rejeitarem qualquer ato de violência". / AFP e REUTERS

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