Bolívia quer afastar EUA do combate à cocaína

Frustrado com a maneira como os EUAgastam dinheiro no combate à produção de cocaína na Bolívia, ogoverno de Evo Morales decidiu assumir a tarefa, disse naterça-feira o "czar" antidrogas boliviano. "Estamos planejando nacionalizar a guerra contra otráfico", disse Felipe Cáceres à Reuters. "Ainda vamos dar asboas-vindas à cooperação no futuro, mas o governo boliviano vaidecidir como esse dinheiro será gasto". "É uma questão de soberania, dignidade", acrescentouCáceres, vice-ministro de Defesa Social e SubstânciasControladas. Assim como Morales, Cáceres é dono de uma lavoura de coca,planta que, além de ser matéria-prima da cocaína, é usada porindígenas locais para fins tradicionais, como chá ou mascada,para combater a fome e os males da altitude, por exemplo. A Bolívia é o terceiro maior produtor mundial de cocaína,atrás de Colômbia e Peru, e só neste ano os EUA já destinaramcerca de 25 milhões de dólares ao combate às drogas. Washingtontambém financia programas para estimular produtores de coca asubstituirem a planta por outros cultivos, como banana,críticos e café. "A política do governo dos EUA faz com que, de todo odinheiro que deveria ser destinado para melhorar as condiçõesdos cocaleiros, 85 por cento vá para veículos, salários. Elesvivem em hotéis com piscina; [o dinheiro] vai para o bolsodeles", acusou Cáceres. "Não estamos rejeitando a ajuda dos EUA. Mas a ajuda nãoestá indo para os cocaleiros, que estão preparados paraproduzir outros produtos e deixar a folha de coca para trás. Nomomento, a cooperação dos EUA é autônoma. Queremos reverteressa situação". Cáceres disse que o governo esquerdista de Morales buscaoutros parceiros, como a Rússia, para fornecer helicópteros eoutros equipamentos. Em visita à Bolívia, David T. Johnson, do Departamento deNarcóticos e Assuntos Jurídicos Internacionais dos EUA, elogiou"a idéia de que as autoridades bolivianas estejam dispostas esejam capazes de colocar verbas da Bolívia para também lidarcom essa questão". "Nossos dados mostram que aproximadamente 88 por cento donosso financiamento vai diretamente para assistir asautoridades bolivianas e no trabalho de tratar das questões decombate aos narcóticos", afirmou. Morales adota uma política de "zero cocaína, mas não zerococa", o que permite que dezenas de milhares de pequenosagricultores cultivem a folha para fins legais -- uma práticaque os EUA consideram "permissiva". Segundo a ONU, a Bolívia autoriza o cultivo de 12 milhectares de coca para fins tradicionais, mas a produção seespalha por 29 mil hectares e atinge 104 toneladas por ano. Emmeados da década de 1990, a produção chegava a 48,6 milhectares, segundo Cáceres. Hoje em dia, na estimativa dele, 65por cento do total é para fins legais e tradicionais. Ele afirma que a demanda por cocaína cresceu, especialmentena América Latina e na Europa, mas que grande parte da cocaínaconfiscada na Bolívia está em trânsito do Peru para o Brasil,os EUA e a Europa. A coca é onipresente na Bolívia. É vendida na rua pormulheres indígenas de chapéu-coco e mantas coloridas. Indígenasdos Andes costumam manter um rolinho de folhas dentro da boca,como quem masca fumo. Xamãs usam a planta para finsdivinatórios. No prédio onde fica o gabinete de Cáceres háfotos das escuras folhas de coca e um cartaz anunciando umfestival da coca. O funcionário acha que um dia a Bolívia exportará cocalegalmente. "Há 14 alcalóides na folha de coca. Só um deles écocaína. Se tirarmos a cocaína da coca, podemos exportá-la.Esse é o plano."

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