EFE/Jorge Ábrego
EFE/Jorge Ábrego

Bolívia realiza eleições presidenciais um ano após renúncia de Evo Morales

Clima polarizado gera insegurança sobre uma nova convulsão social como a vivida pelo país em 2019

Valeria Pacheco, AFP, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2020 | 12h55
Atualizado 18 de outubro de 2020 | 13h25

LA PAZ - Quase um ano após a renúncia do presidente Evo Morales, os bolivianos votam neste domingo, 18, para escolher um novo presidente. Em meio a um clima polarizado, o pleito acontece sob a dúvida de se novas convulsões sociais serão registradas, principalmente após a definição de última hora do Tribunal Supremo Eleitoral (TSE), decidiu suspender a contagem preliminar de votos.

Pela primeira vez em duas décadas, Evo Morales não está na disputa eleitoral. O ex-presidente deixou o cargo após vencer as eleições de 2019, marcadas por denúncias de fraude, que o conduziriam para seu quarto mandato consecutivo.

"Não sei ao certo o que vai acontecer, tenho medo que o pior aconteça. Há comentários de políticos que nos assustam", disse Virginia Luna, de 41 anos, no colégio eleitoral Agustín Aspiazu em La Paz, onde chegou muito cedo para votar. 

Há um ano, o país enfrentou violentos confrontos nas ruas após o primeiro turno das eleições, em 20 de outubro de 2019.

Neste país - que possui 41% de população indígena - desde o amanhecer as pessoas faziam fila, sentadas e cumprindo o distanciamento social, como é o exemplo do município de Huarina, situado às margens do Lago Titikaka, a 70 km de La Paz. 

Para os 7,3 milhões de eleitores, os centros eleitorais abriram às 08h, horário local (09h, no horário de Brasília), e vão encerrar as atividades às 17h (18h no Brasil) e estão sob guarda militar e policial, assim como cumprem medidas sanitárias adotadas para evitar a propagação do coronavírus. Os primeiros resultados devem ser divulgados uma hora depois.

Os candidatos favoritos são o economista Luis Arce, do Movimento ao Socialismo de Morales (MAS), e o ex-presidente centrista Carlos Mesa, da Comunidade Ciudadana, segundo colocado nas eleições de 2019.

Responsável pelo "milagre" econômico de Morales (2006-2019), é muito provável que Arce vá ao segundo turno com Mesa. Por causa da pandemia, a campanha foi realizada principalmente nas redes sociais, embora tenham ocorrido alguns confrontos isolados nas ruas entre militantes pró e anti-Evo.

"É o fim de um ciclo do governo de Evo Morales e da crise política. Espera-se começar um processo de fortalecimento das instituições", observou o cientista político Carlos Cordero, da Universidade Católica Boliviana, em comentário à AFP. 

Arce garantiu neste domingo que seu partido, o Movimento pelo Socialismo (MAS), chegará ao poder na Bolívia por meios democráticos e não pelas armas, após criticar a suspensão da divulgação dos resultados preliminares pela Justiça Eleitoral.

"Não tomamos o poder com armas, tomamos o poder por essa via democrática", afirmou Arce, após votar em um colégio eleitoral na área central de La Paz. 

O país andino vive a maior crise econômica em quase 40 anos, com previsão de retração de 6,2% do PIB em 2020. 

As eleições também terminarão as atividades do governo de transição da presidente interina de direita, Jeanine Áñez, que deixou a corrida eleitoral após ser criticada por sua gestão da pandemia, com mais de 8.400 mortos e 130 mil casos.

Tribunal Eleitoral suspende contagem rápida de votos

O Tribunal Supremo Eleitoral (TSE) da Bolívia decidiu suspender na noite de sábado, 17, a contagem preliminar de votos das eleições presidenciais e legislativas. Serão divulgados apenas os resultados da contagem manual, que é mais lenta. "A decisão foi unânime, e após calma avaliação responsável ficou decidido que a Divulgação dos Resultados Preliminares (Direpre) não estará disponível", disse o presidente do TSE, Salvador Romero, em entrevista coletiva na noite de sábado.

Romero ainda afirmou que o país terá uma contagem oficial segura e transparente. Ele também explicou que a determinação foi relatada à comunidade internacional.

De seu exílio na Argentina, o ex-presidente boliviano Evo Morales expressou sua preocupação com a suspensão em sua conta no Twitter. "Fizemos observações públicas que não foram respondidas em tempo hábil. Esta decisão de última hora levanta dúvidas sobre as suas intenções", disse. Enquanto isso, o candidato de seu partido, o ex-ministro da Economia Luis Arce - favorito nas pesquisas - não fez comentários.

A aliança centrista Comunidade Cidadã (CC) do ex-presidente Carlos Mesa - o segundo colocado nas pesquisas - lamentou a decisão, mas expressou que entende os motivos. "Optar pela fiabilidade, certeza e segurança dos resultados oficiais, que são os únicos que têm valor jurídico", afirmou a aliança em comunicado.

Por sua vez, as missões de observação eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) e da União Interamericana de Organizações Eleitorais (UNIORE), bem como a Missão de Peritos do Centro Carter, da Igreja Católica, da União Europeia (UE) e a Organização das Nações Unidas (ONU) apoiou a decisão, considerando que ela "privilegia a certeza e busca não comprometer a correta divulgação dos resultados".

Eles também garantiram que acompanharão o desenvolvimento do cálculo para verificar o seu funcionamento e a publicação dos resultados oficiais. Ao mesmo tempo, fizeram um apelo aos bolivianos para que participem do dia das eleições e acompanhem a divulgação das informações oficiais até sua conclusão nos próximos dias.

A nação andina vive um clima de inquietação com as eleições, que nos últimos dias fez com que muitas pessoas recorressem aos mercados para se abastecerem por medo de possíveis conflitos após a votação.

A Bolívia busca resolver nas urnas a crise política e a eclosão social gerada no final do ano passado após o cancelamento das eleições por suspeitas de fraude, o que levou à renúncia de Morales e à ascensão do governo interino de Áñez.

A nova pandemia de coronavírus obrigou a duas suspensões eleitorais, aumentando a tensão política e fazendo com que a campanha fosse marcada por protestos./ AFP e AP

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