Bolívia reivindica 600 km² de território da Argentina

Alegando mudança na fronteira, La Paz ordena que 17 famílias do Vale do Silêncio deixem o local ou se tornem bolivianas

O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2014 | 02h00

BUENOS AIRES - Uma inesperada questão fronteiriça entre Bolívia e Argentina está ganhando força, depois que o governo de Evo Morales pressionou 17 famílias argentinas que vivem no Vale do Silêncio, na remota Província de Salta, a abandonarem o local. La Paz alega ter acertado com Buenos Aires a modificação do traçado da fronteira - o que a chancelaria argentina nega.

A medida anunciada pela Bolívia pode atingir até 50 famílias argentinas, segundo o jornal local El Tribuno. O governo Evo reivindica uma área de 600 quilômetros quadrados e, segundo noticiou o diário, as famílias - que sobrevivem com atividades de pastoreio e pequena agricultura - foram intimadas por autoridades bolivianas a definir seu "status de cidadania". Deveriam solicitar naturalização boliviana ou deixar o local, segundo enviados do governo Evo à região.

A Bolívia afirma que a Argentina concordou em modificar 30 quilômetros da fronteira em um acordo firmado há três meses. Questionada, a diplomacia argentina negou ter realizado qualquer negociação territorial com La Paz, muito menos concordado em ceder unilateralmente parte de seu território.

"O limite internacional entre Argentina e Bolívia está determinado pelo Tratado Definitivo de Limites, de 1925. Ele não foi modificado nem há intenção de fazer isso", afirmou o ministro das Relações Exteriores argentino, Héctor Timerman, por meio de um comunicado. "Entre a República Argentina e o Estado Plurinacional da Bolívia, não há disputas em matéria de limites fronteiriços."

As famílias na mira da Bolívia protestaram contra o suposto abandono por parte de Buenos Aires. O Vale do Silêncio é habitado por argentinos há séculos A região é extremamente pobre e a maior parte da população é de indígenas. O jornal El Tribuno afirmou ainda que a Bolívia está construindo uma estrada que liga a região em disputa à cidade boliviana de Tarija "usando mão de obra argentina".

Em editorial, o segundo maior jornal da Argentina, La Nación, criticou a falta de transparência na diplomacia do governo de Cristina Kirchner. "É dever do governo argentino informar e tornar públicos os atos da chancelaria", protestou o periódico. "Mais ainda quando se trata do território nacional e de sua integridade."

Há duas semanas, uma reunião na região de fronteira com as famílias do Vale do Silêncio, autoridades da Bolívia ameaçaram expulsar as famílias argentinas do local. Roberto Ruiz Bass Werner, secretário executivo do governo de Tarija, teve de ir à região tentar acalmar os moradores.

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