Bolivianos aprovam nova Carta

Após vitória por cerca de 60%, Evo proclama ?refundação? de país com igualdade para todos os cidadãos

Reuters e AP, La Paz, O Estadao de S.Paulo

26 de janeiro de 2009 | 00h00

O presidente Evo Morales proclamou ontem a "refundação" da Bolívia após a aprovação da nova Constituição do país. "Aqui começa uma nova Bolívia com igualdade de oportunidades para todos os bolivianos", afirmou Evo à multidão que se concentrou na Praça Murillo, em La Paz, para celebrar a vitória do "Sim" no referendo constitucional. A oposição advertiu que não permitirá que a aprovação da Carta seja utilizada pelo governo para levar adiante um projeto "totalitário" e pediu um "pacto nacional" ao presidente que inclua a revisão do projeto.De acordo com sondagens de três emissoras de TV baseadas em pesquisas de boca-de-urna (a Unitel, a Red Uno e a PAT), a nova Carta foi aprovada por cerca de 60% dos bolivianos. O levantamento feito pela rede de TV ATB também deu vitória do "sim": 58,3% a 41,7%.Cerca de 3,8 milhões de bolivianos foram ontem às urnas para opinar sobre os 411 artigos da nova Carta, que amplia os direitos da população indígena e dá sinal verde para que o presidente Evo Morales concorra em dezembro à reeleição.O dia de votação foi tranquilo, sem registro de ocorrências graves. O presidente da Corte Nacional Eleitoral, José Luis Exeni, abriu a votação às 8 horas (10 horas de Brasília) com uma pequena cerimônia. RESPOSTAEvo votou na vila 14 de Setembro, na região cocaleira do Chapare, a 260 quilômetros de La Paz. Em uma coletiva logo após a votação, o presidente disse estar satisfeito com a reação da população. "Houve uma resposta em massa, estamos otimistas", afirmou Evo.O presidente disse ainda que convocará para amanhã uma reunião de seu gabinete em La Paz para planejar uma gestão plurinacional. "Devemos mudar de conduta e quero que voltemos a acolher essa trilogia da cultura indígena que nossos antepassados nos deixaram: o Ama Sua (não roubes), Ama Quella (não sejas fraco) e Ama Llulla (não mintas)", disse Evo. "Acrescento aí algumas questões de princípios, que são o antineolibralismo, o anticolonialismo e o anti-imperialismo."O delegado da comissão internacional de observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA), Raúl Lagos, mencionou que a votação foi tranquila, com contratempos "esporádicos" em algumas regiões.Um dos líderes da oposição, Rubén Costas, governador de Santa Cruz, disse depois de votar que o referendo "abre a esperança de sonhar com um país melhor e de buscar equilíbrios para que todos sejamos donos da mudança". Já a governadora de Chuquisaca, Savina Cuéllar, disse que seu Departamento não iria acatar à nova Carta porque o projeto não foi aprovado na região. Jorge Quiroga, chefe do principal partido de oposição, o Podemos, afirmou em La Paz que o governo deu uma cara de "plebiscito" à consulta para governar por decreto.Entre as principais polêmicas contidas na Carta está a limitação dos latifúndios. O projeto também prevê que os 36 povos indígenas originários bolivianos (uma minoria que não faz parte das duas grandes etnias do país), poderão ter sistemas de Justiça próprios.REELEIÇÃOSe a aprovação da Constituição for realmente confirmada, o presidente Evo poderá se candidatar à reeleição no dia 6 de dezembro. O projeto estatista e indigenista da nova Carta é rejeitado pela oposição, que alega que a legislação deixaria de lado a ideia de igualdade dos cidadãos perante o Estado. Na véspera da eleição, Evo rebateu os opositores e disse que "a Constituição não foi feita para excluir nem para marginalizar ninguém, mas para que os originários milenares (indígenas e camponeses), que são muitos, se unam aos originários contemporâneos (brancos), que têm muito mais dinheiro".

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