Bolivianos driblam lei e mantêm luta pelo Congresso

Com favoritismo quase irreversível de Evo na disputa pela presidência, oposição tenta evitar controle total do Legislativo

MURILLO FERRARI, ENVIADO ESPECIAL / LA PAZ, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2014 | 02h03

A dois dias das eleições bolivianas, a maior parte dos partidos do país tratou de burlar a lei de silêncio eleitoral e manter a campanha nas redes sociais como Facebook e Twitter. Embora as pesquisas de intenção de votos apontem para a quase irreversível reeleição de Evo Morales na eleição presidencial, a disputa pelas cadeiras da Câmara e do Senado segue aberta.

A luta da oposição na votação parlamentar é evitar que o Movimento ao Socialismo (MAS, o partido de Evo) obtenha maioria absoluta nas duas Casas - o que daria ao presidente poderes quase totais sobre qualquer tema, incluindo a possibilidade de emendar a Constituição para concorrer a um novo mandato, que seria o quarto, na eleição de 2019.

O uso das redes sociais se dá graças a uma brecha não prevista pelo Tribunal Supremo Eleitoral (TSE). Na quinta-feira, um porta-voz do organismo disse que todos os casos seriam analisados e sanções, se necessárias, seriam tomadas.

Em meio ao clima pré-eleitoral, o caso de violação mais emblemático foi a divulgação ontem de uma falsa notícia nas redes de que Jorge Quiroga, do PDC, teria desistido de sua candidatura em favor de Samuel Doria Medina, da Unidade Democrática.

A imagem apresentava a notícia como se ela tivesse sido publicada pelo site de um dos principais jornais de Santa Cruz, e foi desmentida depois.

Para a congressista do PDC, Centa Reck, o caso foi plantado por membros da UD que tentam prejudicar a candidatura de Quiroga. Centa qualificou o episódio de "vergonhoso" e "guerra suja".

Nas sondagens de intenção de voto, a UD aparece em segundo lugar, com 18%. O partido intensificou ontem suas acusações contra o MAS. Segundo o partido de Doria Medina, o grupo governista desrespeitou a norma do TSE que proíbe aparição em atos de campanha ou uso da mídia para promover suas candidaturas.

À imprensa local, membros da UD afirmaram que o MAS continuava utilizando os canais estatais de televisão e rádio para difundir pelo menos 17 propagandas com conteúdo que favoreceria a campanha governista. O embate contra o Evo mostra também uma nova estratégia da UD, que até o começo desta semana concentrava seus discursos no também opositor Jorge Quiroga, do Partido Democrático Cristão (PDC).

Nenhum porta-voz ou membros do MAS comentou as denúncias dos opositores até o final da tarde de ontem. A Justiça Eleitoral, no entanto, acatou a reclamação contra a campanha de Evo e decidiu que pelo menos 12 spots publicitários do governo deveriam deixar de circular em no máximo duas horas depois que as emissoras fossem notificadas.

Os anúncios denunciados pela oposição "tinham um forte componente de propaganda governamental", afirmou o porta-voz do TSE, Ramiro Paredes, ao explicar a decisão da corte.

Nas ruas da capital La Paz, no entanto, o clima entre os milhares de bolivianos que circulam no meio de cartazes de todos os candidatos é de tranquilidade - não houve registro ontem de conflitos entre partidários de nenhum dos candidatos, por exemplo -, com uma ampla maioria indicando que apesar das desavenças entre os partidos, os eleitores da região devem votar em Evo e consolidar sua vitória na região.

"Confiamos no presidente Evo Morales, já temos uma decisão e não temos porque mudar", disse ao Estado a dona de casa Alicia Condore, de 46 anos. "Escolhi ele porque os outros presidentes não cuidavam de quem mais precisa no país, como os camponeses e os índios. Hoje, essa situação mudou e acredito que assim o país continuará a melhorar."

Já a secretária Nayra Rodríguez, de 35 anos, que também é eleitora de Evo, acredita que apesar dos erros que o presidente possa ter cometido, "como todos os outros cometeram antes dele", o país está melhor do que há nove anos, "especialmente em áreas como educação e economia". "Acredito, porém, que esses erros podem fazer ele perder alguns eleitores. Na minha casa, por exemplo, há pessoas que não votarão nem no Evo nem no MAS."

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