David Mercado/REUTERS
David Mercado/REUTERS

Bolivianos usam criatividade para driblar impacto da covid no emprego informal

Oito em cada dez trabalhadores do país não são registrados; expansão do setor deve diminuir remuneração

Anastasia Moloney e Wara Vargas, Reuters

24 de março de 2021 | 05h00

LA PAZ - Reynaldo Luna, um palhaço com talento para dançar rap, tinha uma vida decente trabalhando em festas infantis em La Paz, capital da Bolívia, onde é conhecido pelo nome de Rapito Mix.

Tudo mudou quando a covid-19 chegou aos Andes.

Com a proibição de festas, a renda de US$ 300 mensais (aproximadamente R$ 1.656) foi dizimada. O lockdown e uma profunda recessão no país, um dos mais pobres da América do Sul, fizeram Luna usar sua criatividade em outro negócio.

Há cerca de um ano, ele e sete outros artistas desempregados começaram a produzir sua própria linha de máscaras inspiradas em palhaços e super-heróis, entregando-as aos clientes por meio de motos e usando nariz vermelho de palhaço, rosto pintado e uma braçada de balões.

“É uma entrega em casa que levanta o espírito e coloca um sorriso no rosto de uma criança. Tentamos fazer algo original”, diz Luna, 39 anos, que tem dois filhos. “Não conseguimos poupar nenhum dinheiro. O que ganhamos é o suficiente para nos mantermos”.

Luna pertence a um exército de pessoas trabalhando autonomamente como vendedores de rua, operadores de mercado e proprietários de pequenas empresas, que com frequência trabalham e recebem à vista e que constituem o grosso da economia informal no país de 11,6 milhões de pessoas.

Mesmo antes da pandemia, oito em cada dez trabalhadores bolivianos não eram registrados, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento, o que significa que não têm previdência social, seguro saúde ou proteções trabalhistas.

À medida que as empresas fecham e as pessoas são demitidas, a economia informal só deve expandir e a remuneração - no caso de trabalhadores como Luna - cairá ainda mais. “Os empregos do setor formal estão sendo substituídos pelas atividades informais”, disse Martin Rama, economista chefe para assuntos latino americanos e caribenhos no Banco Mundial. “A expectativa é de que haverá menos emprego formal e salários menores no setor informal”.

Sem proteção social

Numa certa rua de La Paz, uma cidade claramente dividida por classe e raça, a economia informal está à plena vista. As mulheres vendem sanduíches e bebidas quentes na calçada, os homens limpam pára-brisas dos carros e fazem entregas, as crianças engraxam sapatos.

Embora tais cenas sejam comuns na paisagem urbana de toda a América Latina, os bolivianos estão mais propensos a trabalhar para conseguir algum dinheiro à mão e sem um contrato formal de trabalho. “Na Bolívia o setor informal é grande e um dos maiores na região”, afirmou Philippe Vanhuinegem, diretor da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para os países andinos.

A pandemia expôs uma realidade enfrentada por muitos bolivianos, ou seja, que muitos trabalhadores, particularmente agricultores e trabalhadores domésticos e manuais, com frequência são mal pagos e estão em empregos temporários sem nenhuma proteção social.

Patricia Llave, 48 anos, mãe de três filhos, sabe perfeitamente como é precária sua vida. Ela tinha uma renda de cerca de US$ 700 (aproximadamente R$ 3.920) mensais vendendo móveis feitos à mão por seu marido em sua marcenaria e cozinhando para eventos.

Mas depois de um ano, com os lockdowns impostos por causa da pandemia, a renda despencou e as economias feitas acabaram. Agora o casal procura viver vendendo produtos essenciais na pandemia, como desinfetante de mão, máscaras e filmes em DVD nas ruas de La Paz.

“Se não formos para a rua, não ganhamos”, disse ela, saindo de casa com sua sacola de produtos no escuro gelado da madrugada.

Transferências de dinheiro

Para ajudar a amortecer o impacto econômico da covid-19, o governo boliviano implementou um programa de US$ 700 milhões (aproximadamente 3,9 bilhões) para pagar um auxílio em dinheiro para os bolivianos. O presidente Luis Arce, que assumiu o governo em novembro, prometeu essa ajuda social “tantas vezes quanto for necessário” e o auxílio tem beneficiado estudantes, pessoas com deficiência, famílias pobres e mães.

As mulheres na Bolívia, como no resto da América do Sul, são as mais propensas a trabalhar na economia informal, como empregadas domésticas, faxineiras e cozinheiras, o que significa que têm sido desproporcionalmente afetadas pela pandemia.

E também perderam seu emprego mais rápido do que os homens, pois trabalham nos setores mais atingidos. “Muitas mulheres antes da crise já estavam trabalhando nos setores mais atingidos pela pandemia, como o turismo e o hoteleiro”, disse Rama.

Anos de 'boom' destruídos

A Bolívia teve uma história de sucesso econômico consistente durante os quase 14 anos de governo de Evo Morales, encerrado em 2019, registrando um crescimento anual do Produto Interno Bruto - PIB - de 4,9% em média, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

O capitalismo socialista de Morales tirou muitos bolivianos da pobreza e a classe média cresceu de 35% para 58% da população entre 2005 e 2017, segundo dados oficiais.

Mas a pandemia ameaça destruir esses ganhos. A economia boliviana, dominada pela agricultura e exportações de gás natural, encolheu 7,3% no ano passado, ao passo que o número de pobres - definido como os que ganham menos de US$ 5,50 (aproximadamente R$ 30) por dia, aumentou de 22% para 31%, conforme estimativas do Banco Mundial.

A requalificação dos trabalhadores será vital para uma recuperação sustentável, afirmam especialistas. “Empregos melhores exigem mais produtividade”, afirma Manuel Urquidi, especialista em mercados de trabalho do BID na Bolívia. “Num mundo pós-pandemia, a necessidade de uma reciclagem profissional vai ser ainda maior”.

Mas para muitos trabalhadores informais no país, mudar o enfoque para se adaptar aos tempos virá naturalmente. José Valdez, que trabalhava como apresentador de rádio autônomo, perdeu o emprego no ano passado com o fim das receitas de publicidade. O que o levou a começar uma empresa de entrega de comida e encomenda por aplicativo, o Chasqui Delivery, que emprega 30 pessoas para entrega de encomendas de restaurante e ceviche feito por sua mulher, a pé ou de bicicleta. “Decidimos aprender novas habilidades”, disse Valdez, 35 anos, que espera expandir sua empresa para todo o país, por meio de franquias. “Decidimos que a covid-19 não nos derrotaria”. /Tradução de Terezinha Martino

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