Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Bolsonaro decide mandar Mourão para representar Brasil na posse do novo presidente da Argentina

Presidente havia cancelado a ida do ministro da Cidadania à cerimônia, mas foi aconselhado por vários ministros, incluindo os militares, de que seria importante fazer um gesto ao país vizinho

Tânia Monteiro / Brasília, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2019 | 17h18
Atualizado 09 de dezembro de 2019 | 22h08

Após ter dito que não enviaria ninguém do alto escalão para a posse do presidente argentino Alberto Fernández, Jair Bolsonaro mudou de ideia nesta segunda-feira, 9, e convocou o vice-presidente Hamilton Mourão para representá-lo. A decisão foi tomada após almoço com militares no Clube Naval. É a primeira vez desde 2002 que um chefe de Estado brasileiro não vai à cerimônia de um presidente da Argentina.

A birra de Bolsonaro com Fernández tem caráter ideológico. O presidente brasileiro apoiou Mauricio Macri na eleição de novembro e ficou irritado quando Fernández postou, na noite de sua vitória, uma mensagem no Twitter felicitando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por seu aniversário e pedindo sua libertação. O presidente eleito da Argentina já havia visitado Lula em Curitiba. 

“Não vou à posse de um cara que se elege falando Lula Livre, não vou”, disse Bolsonaro, na ocasião. Mais tarde, ele pensou em mandar o ministro da Cidadania, Osmar Terra. Depois, garantiu que apenas o embaixador em Buenos Aires, Sérgio Danese, representaria o Brasil.

A ausência de Bolsonaro, no entanto, vinha sendo criticada por integrantes do próprio governo, apesar de o presidente brasileiro ter garantido que o ruído diplomático não afetaria o comércio com a Argentina. A pressão por um gesto de distensão vinha principalmente do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e dos ministros da Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos, e da Economia, Paulo Guedes.

Nesta segunda, o presidente brasileiro deu meia-volta. “Achamos melhor, para não dar a entender que estamos fechando portas”, disse o presidente, que cogitou até enviar Guedes em razão dos negócios com a Argentina, mas no fim optou por Mourão. “O que interessa para nós, interessa para eles.”

“Foi pragmatismo”, afirmou ao Estado um dos militares ouvidos pelo presidente, que preferiu não se identificar. Mourão embarcou nesta segunda às pressas para Buenos Aires. “O presidente não me explicou nada. Apenas me chamou e determinou que eu fosse à Argentina”, afirmou o vice-presidente, após conversar com Bolsonaro. “É uma decisão política, um gesto de boa vontade com o novo governo argentino.”

A decisão de não prestigiar a posse do argentino vinha se tornando insustentável diante dos sinais de aproximação enviados por Fernández. Na semana passada, ele nomeou Daniel Scioli embaixador em Brasília com a missão de “desestressar” a relação. Em seguida, o argentino aproveitou a visita a Buenos Aires de Maia, para enviar a Bolsonaro uma mensagem de “respeito” e pedir para que os dois trabalhassem “juntos” por um “destino comum”.

A resposta de Bolsonaro foi uma mensagem em seu perfil no Facebook criticando Martín Guzmán, ministro da Economia nomeado por Fernández na semana passada. Segundo Bolsonaro, Guzmán teria recomendado o livro Valsa Brasileira, de Laura Carvalho, que, segundo o presidente brasileiro, havia sido “economista do PSOL” na última eleição. 

Nesta segunda, ao deixar o Palácio da Alvorada, Bolsonaro ainda parecia irredutível e disse que estava analisando a “lista de convidados”, antes de decidir quem enviaria à cerimônia. “Primeiro, quando assumi aqui, não convidei algumas autoridades também”, disse. Para sua posse, em 1.º de janeiro, Bolsonaro não convidou os presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro, e de Cuba, Miguel Díaz-Canel – que está em Buenos Aires para a posse de Fernández. 

A última vez que um chefe de Estado do Brasil deixou de ir à posse de um presidente argentino foi em 2002. Na ocasião, Fernando Henrique Cardoso não compareceu à cerimônia de Eduardo Duhalde, eleito pelo Congresso, em meio a uma grave crise econômica que fez a Argentina ter cinco presidentes entre 2001 e 2003. 

A decisão de enviar Mourão a Buenos Aires foi recebida com alívio por empresários brasileiros. Para José Ricardo Roriz, vice-presidente da Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) e presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), apesar de o governo ter decidido enviar um representante, a discussão prejudica a relação bilateral. 

“Vimos com muita preocupação o anúncio de que não haveria um representante. A Argentina é o país que historicamente mais compra manufaturados do Brasil e é importante manter uma boa relação, independentemente da posição ideológica do presidente,” disse. “Prevaleceu o bom senso, mas não ficou uma mensagem positiva.”

A indústria brasileira, que sentiu a queda das importações argentinas, poderá se beneficiar de um eventual plano de estímulo ao consumo, com crédito mais barato, que Fernández pode lançar. Por outro lado, o controle ao câmbio pode travar as importações. “Não espero uma recuperação (nas compras de produtos brasileiros), mas também não deve cair muito mais”, disse Andrés Borenstein, economista do BTG Pactual na Argentina.

O ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior, também não acredita que a relação bilateral seja alterada pelo desgaste entre Bolsonaro e Fernández. “Não dou muito importância a isso. A relação bilateral é muito importante: a Argentina não pode ficar sem o Brasil, e nem o Brasil sem a Argentina. Não há uma crise, há uma escalada (do debate) pessoal, não institucional.”

Oliver Stuenkel, professor da FGV, acredita que Mourão terá agora um mandato para cuidar do assunto. “A viagem do Mourão é a melhor notícia da relação bilateral”, disse. “A relação amistosa entre Brasil e Argentina é fruto de um duríssimo trabalho diplomático feito nos anos 80. É algo que se construiu, mas que também pode ser destruído.”

Segundo Sergio Berensztein, analista político argentino, o vínculo entre os dois presidentes precisa ser construído – e Mourão é um passo na direção certa. “Não há um conhecimento objetivo sobre sua personalidade (Mourão), mas é certo que é muito importante a visita, porque uma ausência do Brasil teria sido tomada como falta de interesse.” / COLABORARAM CARLA BRIDI, EMILLY BEHNKE E LUCIANA DYNIEWICZ

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