João Andrade/Reuters
João Andrade/Reuters

Bolsonaro diz que embargo dos EUA ao Irã ameaça empresas brasileiras

Presidente brasileiro comenta situação de navios parados desde o início de junho no Porto de Paranaguá, no Paraná, e diz que governo alertou mercado nacional sobre riscos

Mariana Haubert, BRASÍLIA, Mariana Durão, RIO e Julio Cesar Lima, Especial para o Estado, CURITIBA, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2019 | 14h42

O presidente Jair Bolsonaro alertou nesta sexta-feira, 19, para o risco de sanções impostas pelos EUA ao Irã ameaçarem empresas brasileiras. Desde junho, dois cargueiros iranianos que estão na lista negra do Departamento do Tesouro americano esperam no Porto de Paranaguá uma decisão judicial para abastecer e seguir viagem. A Petrobrás se nega a vender combustível às embarcações, pois teme sofrer punições.

Em Brasília, Bolsonaro afirmou que o problema das sanções dos EUA ao Irã é um risco para as empresas brasileiras. “Existe esse problema. Os EUA, de forma unilateral, pelo que me consta, têm embargo levantado contra o Irã (na verdade, ele quis dizer “um embargo em vigor”). As empresas brasileiras foram avisadas do problema e estão correndo risco.”

Bolsonaro lembrou também que tem se aproximado cada vez mais do presidente americano, Donald Trump, mas destacou que o Brasil precisa cuidar dos seus problemas "em primeiro lugar". O presidente afirmou ainda que o País está de braços abertos para acordos e parcerias com outros países.

"Eu, particularmente, estou me aproximando cada vez mais do Trump, fui recebido duas vezes por ele, ele é a primeira economia do mundo, segundo mercado econômico. E hoje abri para jornalistas estrangeiros que o Brasil está de braços abertos para fazermos acordos, parcerias, para o bem dos nossos povos. O Brasil é um país que não tem conflito em nenhum lugar do mundo, graças a Deus, pretendemos manter nessa linha, mas entendemos que outros países têm problemas e nós aqui temos que cuidar dos nossos em primeiro lugar", disse.

Os dois cargueiros parados em Paranaguá são o Bavand, carregado com milho, e o Termeh, que trouxe ureia do Irã. Eles estão presos no porto desde o mês passado. A estatal brasileira alega que poderia sofrer punições caso abastecesse os navios e diz que outras empresas podem fornecer o combustível.

O impasse ocorre no momento em que o Brasil busca uma aproximação com os EUA e o governo americano aumenta a pressão diplomática sobre o Irã. Em maio de 2018, Trump retirou o país de um acordo que restringia o programa nuclear iraniano em troca da suspensão gradual das sanções.

Em perigo

Para o ex-embaixador do Brasil em Washington, Rubens Barbosa, a decisão da Petrobrás em negar o abastecimento aos navios iranianos não tem influência do governo federal. “É uma decisão puramente empresarial. Empresas que comercializam ou ajudam de alguma maneira o Irã não podem fazer negócios com os EUA.”

O pacote de sanções americanas estabelece que empresas atuantes nos EUA terão os ativos congelados e as atividades paralisadas no país, caso façam transações comerciais com o Irã. O mesmo se aplica a pessoas físicas. “A Petrobrás tem negócios nos EUA, não pode correr o risco de ficar congelada”, disse Barbosa.

O caso foi parar na Justiça e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, derrubou uma liminar do Tribunal de Justiça do Paraná que havia liberado o abastecimento. O caso deve ser julgado pelo plenário do STF, que só retorna às atividades em agosto.

Em nota, os exportadores que contrataram os navios afirmaram que não há alternativa à estatal no fornecimento de combustível – a Petrobrás, no entanto, garante que há outras fornecedoras no mercado. Além disso, segundo a empresa brasileira, cujo nome não é divulgado em razão de o processo correr em sigilo de Justiça, o transporte de alimentos está livre de qualquer sanção.

“Sem combustível, as embarcações podem ficar à deriva, com risco ambiental”, destaca a nota, alertando para riscos graves à tripulação, ao navio, à carga e à navegação.

Ancorados no litoral paranaense, os navios vêm recebendo comida por meios de barcaças que se deslocam do continente até eles. O Bavand tem 20 tripulantes e nenhum deles saiu do navio desde o começo do impasse, segundo a assessoria dos Portos de Paranaguá e Antonina (Appa).

Mais dois navios parados

Ao menos dois cargueiros iranianos alvo de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos estão na costa de Santa Catarina, na fila para atracar no Porto de Imbituba. São eles o Ganj e o Delruba. Enquanto o primeiro desembarcará uma carga de 66 mil toneladas de ureia, um fertilizante, o segundo recolherá 67 mil toneladas de milho vendido para o Irã.

Como o Porto de Imbituba não faz abastecimento de combustível, ambos os navios devem seguir viagem. Ao Estado, a Petrobrás ressaltou, por meio de nota, que caso os dois navios solicitem combustível à empresa em território brasileiro, o pedido será declinado em virtude das sanções americanas. Ainda de acordo com a estatal, outras empresas podem fazer o abastecimento. / COLABORARAM LUIZ RAATZ E CARLA BRIDI

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