REUTERS/Agustin Marcarian
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‘Bolsonaro e Fernández serão obrigados a conviver um com o outro’

Para Ignácio Labaqui, cientista político da Universidade Católica de Buenos Aires, parceria estratégica entre Brasil e Argentina terá mais peso que discordâncias ideológicas

Entrevista com

Ignacio Labaqui, professor da Universidade Católica de Buenos Aires

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2019 | 12h53

A vitória de Alberto Fernández nas prévias argentinas desencadeou uma troca de insultos entre o presidente Jair Bolsonaro e o candidato kirchnerista, afilhado político da ex-presidente Cristina Kirchner.

 Na segunda-feira, 12, Bolsonaro disse que "o Rio Grande do Sul viraria Roraima se a esquerdalha chegar ao poder na Argentina”, em referência à crise migratória na Venezuela. Fernández respondeu: “comemoro enormemente que fale mal de mim. É um racista, um misógino e um violento.”

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Para Ignacio Labaqui, cientista político da Universidade Católica de Buenos Aires, parceria estratégica entre Brasil e Argentina terá mais peso que discordâncias ideológicas. Leia a entrevista:

 

Qual será a estratégia de Macri para reverter a vantagem de Alberto Fernández?

Eu diria que é quase impossível reverter um resultado tão contundente. Mesmo que aumente a participação, dificilmente esses votos irão todos para Macri. Ele precisa que caia o apoio a Fernández, a participação aumente e ele seja o principal beneficiado dos novos votos, além de tirar votos de Lavagna, Gómez Centurión e Espert. Essa conjunção toda é algo muito difícil de ocorrer.

Como uma vitória de Fernández poderia influenciar a relação da Argentina com o Brasil, já que Bolsonaro apoia Macri abertamente?

É possível que a relação não seja tão próxima, já que Bolsonaro apoia Macri e o kirchnerismo teve no passado muita afinidade com o PT. Mas Argentina e Brasil são sócios estratégicos. O Brasil é o principal destino das exportações argentinas. Assim, por motivos estruturais, Bolsonaro e Fernández estariam obrigados a conviver, ainda que não tenham apreço um pelo outro.

Como ficaria o Mercosul e o acordo com a União Europeia num governo kirchnerista?

A reação inicial de Fernández foi negativa sobre o acordo, mas a verdade é que uma coisa é a campanha e outra coisa é governar. Além disso, a ratificação do acordo deve levar pelo menos dois anos.

Como os argentinos veem o apoio de Bolsonaro a Macri e o de Lula a Fernández?

As questões de política externa não são muito relevantes na campanha. É possível que um grupo pequeno do eleitorado simpatize com algumas ideias e políticas de Bolsonaro, mas são minoria. Claramente quem vota em Fernández não tem uma boa opinião a respeito do presidente brasileiro, mas o fato de ele apoiar Macri não tem tido influência. Sobre Lula, a proximidade com Fernández repete os alinhamentos dos governos de Néstor e Cristina kirchner. É algo esperado.

Como impactam para Macri as declarações de Bolsonaro sobre a ditadura no Brasil?

Macri tem tido boas relações tanto com Trump como com Bolsonaro, mas é óbvio que se sentia mais cômodo em termos ideológicos com Obama por exemplo que com a extrema direita que os dois representem. Macri não tem nada a ver com o que Bolsonaro representa. As declarações do presidente brasileiro sobre a ditadura, bem como outras polêmicas, não tem relevância a nível interno na Argentina. 

 

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