Oficial Kremlin/PR
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Com Putin, Bolsonaro diz ser solidário a países que se empenham pela paz

Presidentes de Brasil e Rússia fizeram uma declaração conjunta ao fim da reunião no Kremlin, que durou cerca de duas horas; nos cumprimentos iniciais, Bolsonaro se disse 'solidário' à Rússia

Eduardo Gayer, enviado especial a Moscou, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2022 | 09h24
Atualizado 16 de fevereiro de 2022 | 14h36

MOSCOU - Após uma reunião realizada em meio às tensões no Leste Europeu, o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o presidente russo, Vladimir Putin, fizeram uma declaração conjunta no Kremlin. Sem mencionar a situação da Ucrânia, os presidentes se disseram solidários aos países que se empenham pela paz, e prometeram fortalecer a cooperação e as relações bilaterais entre Brasil e Rússia.

Encerrada a reunião reservada, que durou cerca cerca de duas horas e foi seguida de um almoço, Bolsonaro agradeceu a Putin pela parceria na área de fertilizantes e disse ter resgatado o comércio bilateral entre os dois países aos níveis pré-pandemia. No pronunciamento, o brasileiro também destacou o lado conservador do russo, ex-funcionário da KGB nos tempos da União Soviética.

"Compartilhamos de valores comuns, como crença em Deus e defesa da família", afirmou Bolsonaro, que mais cedo, nos cumprimentos iniciais, disse ser "solidário" à Rússia - sem mencionar o motivo da solidariedade.

Ao fim da reunião, Bolsonaro voltou a falar em solidariedade e, sem citar o conflito com a Ucrânia, disse ser solidário a todos os países que se empenham pela paz. "O mundo é nossa casa e Deus está acima de todos nós. Pregamos a paz e respeitamos todos aqueles que agem dessa maneira, afinal de contas, esse é o interesse de todos nós: paz para o mundo", seguiu o presidente.

Putin concordou com Bolsonaro sobre o uso da via diplomática para a resolução de conflitos - um discurso que as autoridades do Kremlin vem intensificando nos últimos dias, após os EUA denunciarem que uma invasão da Ucrânia por tropas russas era iminente, apesar das negativas de Moscou. O presidente russo também afirmou que Brasil e Rússia têm posições "próximas ou coincidentes" na pauta internacional.

"As posições de nossos países são próximas ou coincidentes. Temos firmes compromissos com resolução de conflitos por meio diplomáticos e políticos", declarou.

Sobre as relações comerciais com o Brasil, Putin destacou o envio de "quase 10 milhões de toneladas" de fertilizantes ao Brasil - principal interesse do País na visita oficial, segundo o Itamaraty. Ele também falou em "eficácia" de conselhos empresariais dos dois países e pontuou que Bolsonaro terá uma reunião com esses grupos em Moscou na noite desta quarta.

O presidente brasileiro destacou que o Brasil é "uma potência, em especial, no agronegócio" e diswe que "existe muito interesse de nossa parte no comércio de fertilizantes", agradecendo a Putin, a quem chamou de "prezado amigo".

 O encontro aconteceu em meio a uma crise de fertilizantes, com a Rússia apertando a oferta do insumo essencial para as lavouras brasileiras. Apesar das declarações otimistas dos presidentes sobre o setor, o comunicado do Itamaraty publicado ao fim da declaração conjunta não menciona a assinatura de nenhum acordo bilateral sobre o insumo, resumindo-se a dizer que Bolsonaro e Putin constataram “com satisfação o aumento do fornecimento de fertilizantes russos ao Brasil”.

Cibersegurança

Além da questão dos fertilizantes, a expectativa do lado brasileiro antes da reunião era buscar uma cooperação na área de segurança digital, segundo as fontes ouvidas pelo Estadão.

No pronunciamento final a repórteres - que não teve espaço para perguntas - Bolsonaro disse ter atribuído junto a Putin "elevada prioridade" na dinamização da parceria tecnológica entre Brasil e Rússia. "Sugeri trabalharmos juntos em áreas de ponta como nanotecnologia, biotecnologia, inteligência artificial, tecnologias de informação e comunicações e pesquisas em saúde e oceanos", afirmou Bolsonaro.

O governo russo é constantemente acusado de promover ataques cibernéticos pelo mundo. Em janeiro, houve um ataque em larga escala contra a Ucrânia. Em junho, pela primeira vez,  as duas potências nucleares iniciaram conversas sobre segurança cibernética, no primeiro encontro entre os mandatários dos dois países, em Genebra.

Há índícios também de uso de hackers e armas cibernéticas para interferir em eleições no mundo todo. Em 2016, os russos usaram hackers para manipular informações que chegavam a eleitores americanos quando Donald Trump disputava a Casa Branca com Hillary Clinton. Na eleição de 2020, o FBI também afirmou que a Rússia estava “ativamente elaborando uma campanha de desinformação contra o então candidato Joe Biden.” 

A Alemanha também encontrou indícios de uma série de tentativas de ataque de hackers contra deputados alemães e tentativas de intereferência no processo eleitoral de setembro de 2021.

Em entrevista ao Estadão, o futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Edson Fachin, disse que a Justiça Eleitoral “já pode estar sob ataque de hackers” e citou a Rússia como a origem da maior parte dessa ofensiva.

“A preocupação com o ciberespaço se avolumou imensamente nos últimos meses, e eu posso dizer a vocês que a Justiça Eleitoral já pode estar sob ataque de hackers, não apenas de atividades de criminosos, mas também de países, tal como a Rússia, que não têm legislação adequada de controle”, afirmou Fachin, em entrevista exclusiva.

Meio ambiente e energia

Questionado internacionalmente pela atenção dada às queimadas e ao desmatamento na Amazônia, Bolsonaro afirmou que Brasil e Rússia abrigam as duas maiores extensões florestais no mundo e vão cooperar em relação ao tema. "Decidimos estabelecer diálogo sobre biodiversidade e sustentabilidade".

O presidente brasileiro também agradeceu a Putin pelo apoio na pauta da Amazônia. "Quando alguns países questionaram a Amazônia como patrimônio da humanidade, eu quero agradecer a sua intervenção, sempre esteve ao nosso lado em defesa de nossa soberania".

Outro tema mencionado pelo presidente foi a "oportunidades" para ampliação de negócios nas áreas de exploração de gás, petróleo e derivados pelos dois países. "Desejamos aprofundar nosso diálogo de alto nível em temas como exploração em águas profundas e hidrogênio. Temos interesse nos pequenos reatores nucleares modulares", disse.

Putin agradeceu a agenda com Bolsonaro e disse ter combinado com o brasileiro de manter intercâmbios bilaterais nas áreas de ciência e medicina. "Gostaria de agradecer Bolsonaro pelo trabalho conjunto. Pretendemos intensificar cooperação em assuntos de interesse da ONU", afirmou.

Sem o 'mesão'

Ao contrário de outros líderes do Ocidente, como Emmanuel Macron e Olaf Scholz, Bolsonaro foi recebido por Putin com certa "proximidade", sentando-se ao lado do presidente russo. Macron e Scholz, como mostraram imagens divulgadas durante as últimas semanas, foram recebidos em uma longa mesa - o que, segundo o Kremlin, faria parte do protocolo contra a covid-19 do governo russo.

O brasileiro foi recebido de maneira diferente, pois aceitou se submeter a um teste de covid-19 do tipo RT-PCR conduzido por profissionais russo - o que foi negado por Macron e Scholz. Segundo fontes da comitiva de Macron ouvidas pela Reuters, o francês quis evitar que a Rússia se apossasse de seu DNA.

Carlos França diz que Brasil quer ‘trabalhar junto à Rússia’ 

O presidente foi à reunião acompanhado apenas por um intérprete. Nem mesmo o ministro das Relações Exteriores, Carlos França, participou. França esteve com o chanceler russo, Sergei Lavrov, em um encontro que também contou com a presença dos ministros da Defesa do Brasil, Walter Braga Netto, e da Rússia, Serguei Shoigu.

Após o encontro, França afirmou nesta quarta-feira que o Brasil quer trabalhar junto à Rússia na promoção de uma ordem internacional multipolar.

A reportagem do Broadcast Político não pôde acompanhar essa agenda porque estava em sala reservada à imprensa nas dependências do Kremlin, no aguardo do resultado do teste de covid-19, conforme orientação do governo local.

“Brasil e Rússia dividem princípios, comungam princípios como respeito a soberania, direito internacional, não intervenção, e queremos trabalhar junto com a Rússia na promoção de uma ordem internacional multipolar”, disse França. “As relações Brasil-Rússia chegam a um elevado ponto de maturidade, quando podemos exercer juntos esse diálogo político nesse formato 2 mais 2”, acrescentou, sobre a reunião entre chanceleres e ministros da Defesa.

Já Lavrov afirmou estar feliz por receber a comitiva brasileira em Moscou e manifestou condolências pelos estragos da chuva em Petrópolis.

“Estou convencido de que nossas conversas [entre autoridades brasileiras e russas] ajudarão a considerar, com mais detalhes, as áreas específicas de nossa interação na esfera da política externa e cooperação para fortalecer a segurança”, declarou o chanceler da Rússia. “Valorizamos nossa cooperação em formatos multilaterais, tanto por meio de associações regionais em sua região quanto dentro da ONU, BRICS e G20”. 

De acordo com Lavrov, a Rússia está interessada no “papel independente” da América Latina e do Caribe no cenário mundial. “Vemos o papel de liderança e central que o Brasil desempenha para garantir o desenvolvimento desta região", finalizou o ministro russo.

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