Capítulo 07

Bolsonaro e Trump

Presidente brasileiro se aproxima dos EUA, faz concessões e volta com promessas inéditas da Casa Branca

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2019 | 15h54

Caro leitor,

A passagem de Jair Bolsonaro por Washington selou a aproximação com os EUA. Como você leu na última Supercoluna, a viagem era uma forma de Bolsonaro satisfazer sua base ideológica e seu time econômico. Em quatro dias, o brasileiro escancarou sua admiração por Donald Trump e ofereceu fidelidade total em troca de promessas ao País. Você pode ouvir neste podcast um resumo da visita. Mas afinal, quem saiu ganhando?

Este editoral do Estadão considera que o vitorioso foi Trump. Bolsonaro não se aproximou dos EUA, mas de um presidente. Nesta coluna, Vera Magalhães traz ponderações do coordenador do curso de relações internacionais da FGV, Matias Spektor, para quem os ganhos da visita superam, e muito, os de encontros anteriores. O Brasil obteve trunfos, mas teve de fazer concessões.

O Itamaraty já estava cético sobre a possibilidade de os americanos apoiarem a entrada do Brasil na OCDE, o chamado "clube dos ricos". Nos jardins da Casa Branca, porém, Trump se comprometeu e disse que faria isso pelo bom relacionamento com Bolsonaro. Mas exigiu mais. Os EUA pediram como contrapartida que o País abrisse mão do tratamento diferenciado que possui na OMC (este glossário ajuda a entender as siglas).

Foi um momento de tensão, pois o Brasil também impôs condições. A questão da OMC faz parte de uma agenda mais ampla dos americanos, que pressionam por uma reforma da organização. O governo brasileiro saiu com o troféu que buscava, considerando a entrada na OCDE como um atrativo de investimentos. Se estiver curioso para saber o que aconteceu com a economia dos países que entraram na OCDE, vale clicar aqui. Há especialistas que acham que o Brasil ofereceu algo concreto em troca de promessas, enquanto outros apontam que o País não sairá perdendo, pois já não vinha usando o benefício na OMC. Você lê algumas opiniões diferentes aqui e aqui.

O Brasil também saiu da viagem com a promessa de virar aliado preferencial fora da Otan, que garante preferência em cooperação militar. Os EUA foram além e discutiram a possibilidade de tornar o País um aliado pleno da aliança atlântica. Mas, apesar de ter mais peso, isso representaria custos. Para o ex-embaixador Rubens Barbosa, a questão da Otan é, junto com a assinatura do acordo que permite o uso comercial da Base de Alcântara, uma das principais conquistas da visita.

Bolsonaro também modelou seu discurso sobre Venezuela para ficar em linha com os americanos: deixar no ar a possibilidade de intervenção militar. Isso contraria a história da diplomacia brasileira, que descarta intervenções externas. Para William Waack, o fascínio de Bolsonaro por Trump piora a crise do chavismo. Da Colômbia, a colunista Monica de Bolle lembra neste artigo que a posição do país tem sido a de respaldar Juan Guaidó como presidente interino, sem apoio a qualquer possibilidade de ação militar.

Ao falar sobre a isenção de visto de turistas concedida para americanos, Bolsonaro resumiu parte do seu espírito na viagem: alguém precisa estender a mão primeiro. Este editoral aponta que a medida pode até trazer benefícios ao Brasil, mas o presidente assume riscos com a política de concessões unilaterais. Como definiu um diplomata, o governo não mostra alinhamento com os EUA porque busca concessões, mas porque, de fato, tem afinidade de pensamento com Trump. Para Washington, isso ficou claro. Agora, é preciso ver os resultados práticos desses afagos e esperar para ver quanto tempo Trump permanece na Casa Branca.

Beatriz Bulla

Beatriz Bulla

Correspondente em Washington (EUA)

Formada em jornalismo e em direito, entrou no Estadão em 2011 para o curso de Focas e ficou. Cobriu economia, política e justiça em São Paulo e Brasília antes de trocar a Lava Jato na capital federal pela capital americana. Vive de olho na relação entre o Brasil e os EUA.

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