Beatriz Bulla
Beatriz Bulla

Em jantar com Bolsonaro, Trump diz que 'não faz promessas' sobre tarifas de produtos brasileiros

Viagem oficial terá assinatura de acordos bilaterais nos setores de defesa e comércio, reuniões com empresários e políticos locais

Beatriz Bulla, Enviada especial a Miami, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2020 | 21h31
Atualizado 08 de março de 2020 | 16h12

O presidente Jair Bolsonaro se reuniu ontem com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no resort de Mar-a-Lago, no sul da Flórida. Na entrada, o americano fez uma aparição de pouco mais de um minuto do lado de fora do resort para posar com Bolsonaro frente às câmeras.

Trump fez elogios ao presidente do Brasil, mas disse que não prometeria poupar o País da imposição de tarifas em nome da boa relação.

A crise na Venezuela e os interesses econômicos dos dois países eram temas que os americanos também pretendiam colocar em debate no jantar, segundo fontes do alto escalão do governo dos EUA.

Ao fazer a breve aparição na frente dos jornalistas, Trump afirmou: “Ele está fazendo um grande trabalho. O Brasil o ama, e os EUA o amam”, afirmou o presidente americano.

Jornalistas questionaram, então, se Trump poderia impor tarifas a produtos brasileiros, como ameaçou fazer em dezembro com o aço importado do Brasil. A ameaça não se concretizou na época após negociações entre as diplomacias dos dois países. Trump respondeu à pergunta falando sobre a amizade e o bom relacionamento com o Brasil, mas afirmou que não faria promessas.

Bolsonaro não entende inglês e não estava com tradutor por perto neste momento. 

“Temos uma ótima relação. Nós sempre ajudamos o Brasil. A amizade é provavelmente mais forte agora do que nunca”, disse Trump. Jornalistas insistiram: “então não haverá mais tarifas?”, e Trump respondeu: “eu não faço promessas”. O americano então respondeu a uma pergunta sobre o avanço do coronavírus e encerrou o pronunciamento. Bolsonaro não respondeu perguntas.  

O tema das tarifas foi retomado por Trump dentro do resort.  O Planalto divulgou um trecho do encontro no qual Trump diz a Bolsonaro que “deu um grande presente” ao brasileiro ao não cobrar tarifas (sobre o aço). “Isso o tornou muito mais popular”, disse Trump.

Conversas sobre Venezuela e 5G

O jantar aconteceu em um restaurante aberto em Mar-a-Lago, sem área reservada para os dois presidentes, e outros convidados sentados em mesas ao redor. 

Na mesa, do lado brasileiro, estavam os ministros Ernesto Araujo (MRE), general Augusto Heleno (GSI); Fernando de Azevedo Silva (Defesa); o embaixador do Brasil nos EUA Nestor Forster; e o deputado Eduardo Bolsonaro.

A imprensa foi levada para fazer imagens da mesa de jantar, onde Trump novamente elogiou Bolsonaro: “ele é um homem sensacional”.

"É uma grande honra ter o presidente do Brasil conosco. Ele é um homem sensacional, está fazendo um ótimo trabalho. nossa relação nunca foi mais próxima. E é muito bom tê-lo aqui", disse.

O presidente Jair Bolsonaro disse estar "muito feliz" de estar no encontro. "É uma honra pra mim e pro meu país. Eu tenho certeza que num futuro próximo é muito bom contar com um bom relacionamento".

Esta é a quarta visita de Bolsonaro aos Estados Unidos em um ano e também o quarto encontro com Trump, por quem o brasileiro deixa claro que tem admiração.

Os dois já se encontraram antes na Casa Branca, em março do ano passado; em junho durante reunião do G-20 em Osaka, no Japão; e em Nova York em setembro, na ocasião da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas. 

O “jantar de trabalho”, como é definido o encontro pela Casa Branca, foi acertado na última semana, quando Trump confirmou que passaria o sábado e domingo em Mar-a-Lago.

A residência no resort é um local de descanso do americano. Bolsonaro já estaria na Flórida para uma viagem na qual pretende encontrar empresários e a comunidade brasileira que vive em Miami. No segundo turno das eleições de 2018, 90% dos brasileiros em Miami votaram em Bolsonaro.

Segundo autoridades do governo americano, Trump quer tratar da situação na Venezuela durante o jantar. O governo Trump vem impondo uma série de sanções aos aliados de Nicolás Maduro, numa estratégia que o governo define como “pressão máxima”, e conta com o alinhamento com Brasil e Colômbia sobre a estratégia para tentar forçar a derrubada do regime chavista.

O governo americano deve anunciar nos próximos dias mais medidas de pressão a Maduro, segundo fontes do governo americano. 

O Brasil vem tentando abrir caminho para negociar um acordo comercial abrangente com os americanos. Integrantes do governo americano afirmam que há “clara vontade política” de Trump em avançar no assunto e que temas econômicos serão discutidos, sem perspectiva de anúncios de medidas concretas.

Nos encontros recentes com o governo brasileiro, os americanos têm manifestado que parcerias em áreas de inteligência e defesa com o Brasil ficarão prejudicadas se o País admitir a entrada da chinesa Huawei para operar tecnologia 5G.

Fontes do alto escalão do governo americano afirmaram neste sábado que os EUA querem que o Brasil considere a possível entrada dos chineses na rede 5G como uma “questão de segurança nacional”. 

A filha de Trump, Ivanka, e o genro do presidente, Jared Kushner, estarão presentes no jantar. Os dois são assessores do presidente dos EUA, que se orgulha de manter familiares no seu círculo profissional.

Assessores da Casa Branca acreditam que o estilo de Trump de deixar que Ivanka lidere iniciativas diplomáticas colabora para que o americano tenha boa vontade com Eduardo Bolsonaro.

Quando o presidente Jair Bolsonaro esteve na Casa Branca, em março, Trump quebrou o protocolo oficial e convidou Eduardo para participar do encontro privado dos dois presidentes no Salão Oval.

Eduardo já esteve em Mar-a-Lago antes, onde posou ao lado de Eric Trump, o filho do presidente americano que é responsável pelos negócios que levam o nome do pai, as Organizações Trump. 

Também estarão presentes o Assessor de Segurança Nacional dos EUA, Robert O’Brien; o assessor da presidência para assuntos de Hemisfério Ocidental, Maurício Claver-Carone; e o presidente da Corporação Internacional para o Desenvolvimento das Finanças dos EUA, Adam Boehler. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.