Oficial Kremlin/PR
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Bolsonaro insinua falsa relação entre sua viagem a Moscou e retirada de tropas da Ucrânia

O anúncio russo de que retiraria parte de suas tropas da Ucrânia, que ainda não foi corroborado pela Otan, ocorreu antes da chegada do presidente a Moscou

Eduardo Gayer/Enviado especial a Moscou, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2022 | 17h39

MOSCOU - O presidente Jair Bolsonaro insinuou, nesta quarta-feira, 16, uma falsa relação entre a sua viagem à Rússia e a suposta retirada de forças militares de Moscou da fronteira da Ucrânia. O anúncio russo de que retiraria parte de suas tropas, que ainda não foi corroborado pela Otan, ocorreu antes da chegada do presidente a Moscou, e seus partidários divulgaram falsamente que haveria uma relação entre os dois episódios.

“Mantivemos nossa agenda e, por coincidência ou não, parte das tropas deixaram (sic) as fronteiras. Entendo que tudo indica grande sinalização de que um caminho para a solução pacífica se apresenta no momento para Rússia e Ucrânia”, afirmou ele.

A promessa do governo de Vladimir Putin de retirar as tropas da fronteira ocorreu após o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, anunciar no dia anterior que a Ucrânia poderia desistir de sua candidatura à Otan - uma medida que ajudaria a cumprir uma das principais demandas de Putin.

O anúncio de Zelenski foi feito durante um encontro com o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, que no dia seguinte se encontrou com Putin. A Alemanha é o principal importador do gás russo e seria fortemente atingida em caso de conflito.

As declarações de Bolsonaro foram feitas após apoiadores do governo usarem as redes sociais para associar as declarações russas de retirada das forças à sua presença em Moscou. O assunto virou “meme” nas mídias digitais, mas Bolsonaro também foi alvo de muitas críticas e comentários irônicos.

Em entrevista, Bolsonaro disse que o presidente da Rússia busca a paz. “Falei para ele que o Brasil é o país que apoia qualquer outro país e é solidário, desde que busquem a paz. E essa é a intenção dele. Não entramos em questões regionais específicas (durante o encontro bilateral), mas a posição do Brasil é essa”, afirmou o presidente, após encontro com empresários em Moscou.

Como mostrou o Estadão/Broadcast Político, Bolsonaro foi aconselhado pelo Itamaraty e também por ministros mais próximos que evitasse abordar o agravamento das relações entre Rússia e Ucrânia.  “Somos solidários a todo e qualquer país, desde que caminhe para soluções. Putin é pessoa que busca a paz. Qualquer conflito não interessa a ninguém no mundo”, argumentou o presidente, ao admitir ter havido pressão de outros países para o cancelamento da visita a Moscou. 

De acordo com seu relato, Putin e ele tiveram momentos de “muita informalidade”. “É, realmente, mais do que um casamento perfeito o que eu levo para o Brasil”, comparou Bolsonaro, ao acenar para a possibilidade de sua visita ter colaborado com a retirada de parte das tropas russas na fronteira com a Ucrânia.

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As declarações russas de recuo das forças ainda não foram confirmadas por outros países. Na terça-feira, 15, o Ministério da Defesa da Rússia disse que algumas tropas estavam sendo retiradas da fronteira com a Ucrânia, um anúncio que o governo voltou a repetir hoje e acrescentou que estava encerrando o os exercícios militares na Crimeia. Os EUA e Otan, porém, dizem não ter visto ainda sinais de retorno das tropas, pelo contrário, haveria um aumento no número. 

"Infelizmente há uma diferença entre o que a Rússia diz e o que faz", disse o secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, em entrevista à ABC News. “E o que estamos vendo não é um retrocesso significativo. Pelo contrário, continuamos a ver forças - especialmente forças que estariam na vanguarda de qualquer agressão renovada contra a Ucrânia - continuando em massa na fronteira.”/NYT

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