Isac Nóbrega / Presidência da República
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Bolsonaro lamenta vitória de Fernández e diz que gesto 'Lula livre' é afronta à democracia do País

'Acho que a Argentina escolheu mal', disse o brasileiro, que ficou incomodado com uma imagem publicada pelo presidente eleito na Argentina em apoio a Lula

Julia Lindner, enviada especial, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 05h00
Atualizado 29 de outubro de 2019 | 10h28

ABU DHABI - O presidente Jair Bolsonaro lamentou a eleição na Argentina do peronista Alberto Fernández, integrante da mesma chapa da ex-presidente Cristina Kirchner, e disse que não vai cumprimentá-lo pela vitória.

“Lamento. Não tenho bola de cristal, mas acho que a Argentina escolheu mal”, disse Bolsonaro na saída do hotel Emirates Palace, em Abu Dhabi, nesta segunda-feira, 28. O próximo destino da viagem presidencial é Doha, no Catar. 

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Bolsonaro ficou incomodado com uma imagem publicada no domingo, 27, por Fernández em apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso desde 2018 no âmbito da Operação Lava Jato. “O primeiro ato do Fernández foi ‘Lula livre’, dizendo que está preso injustamente. Já disse a que veio”, avaliou. 

Além disso, Bolsonaro afirmou que o gesto é uma afronta à democracia brasileira. "É uma afronta à democracia brasileira, ao sistema judiciário brasileiro. Uma pessoa condenada em duas instâncias, outras condenações a caminho. Ele está afrontando o Brasil de graça no meu entender. Nós estamos aguardando seus passos para, talvez no futuro, tomar alguma decisão em defesa do Brasil. Decisões em defesa do Brasil".

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Apesar da crítica, Bolsonaro reiterou que não pretende romper relações com o país vizinho, destacando que optará pelo diálogo. "Pretendo dialogar, sim. Não vamos fechar as portas. Agora, estamos preocupados e receosos tendo em vista até pelo gesto que ele fez de 'Lula livre'", complementando que "muita gente do PT (segundo relatórios que recebeu), estaria na Argentina para comemorar a vitória dele".

Bolsonaro deixou claro que não pretende parabenizar o presidente eleito da Argentina pela vitória, mas ponderou que não vai "se indispor" com o país vizinho em um primeiro momento. "Vamos esperar o tempo para ver qual é a real posição dele na política. Porque ele vai assumir, vai tomar pé do que está acontecendo e vamos ver qual linha ele vai adotar."

Relações com Mercosul

Indagado sobre como ficará a posição no Brasil no Mercosul com a vitória de Fernández, Bolsonaro destacou: "Nós estamos preocupados, não há dúvida. A Argentina, em grande parte, faz comércio graças ao Brasil. Nós não queremos romper nada. Agora, eu digo aos meus ministros, cada um na sua pasta, nós temos de ter capacidade de nos anteciparmos ao problema. Obviamente, se tiver algo mais contundente, nós buscaremos conversar com a Argentina para, de fato, saber qual é a posição deles. Em função disso nós tomaremos a nossa posição".

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Nos últimos dias, o presidente deu declarações em diferentes tons sobre a iminente vitória de Férnandez, desde suspender a Argentina do Mercosul até intensificar as relações comerciais com o país. Nesta segunda, disse que “por enquanto continua tudo bem com o Mercosul”. 

Bolsonaro também voltou a dizer que poderia pedir a suspensão do país do bloco. O apoio, no entanto, indicou que poderia se restringir apenas ao Paraguai dependendo do resultado da eleição no Uruguai. 

“Se interferir (no acordo Mercosul-União Europeia), segundo o Paulo Guedes, a gente junta com o Paraguai, não sei o que vai acontecer na eleição do Uruguai, e pode ver se Argentina fere alguma cláusula para suspendê-la. Mas a gente espera que isso não seja necessário”, disse Bolsonaro.

“Ele (Fernández) disse há algum tempo que sairia do Mercosul, quando esteve visitando o Lula em Curitiba, e vamos esperar agora o banho de realidade que ele vai ter”, disse. “Não está indo bem a Argentina, já ouvi falar que muita gente vai tirar dinheiro de lá”, declarou. 

Sobre o recente pleito na Bolívia, com a reeleição de Evo Morales, Bolsonaro frisou: "Bolívia, sempre temos suspeitas, assim como no Brasil, sempre temos suspeitas nas eleições informatizadas. Nós estamos ultimando uma proposta para que as eleições no Brasil possam ser auditadas. Eu sempre digo: no ano passado, a eleição no Brasil foi polarizada, entre direita e esquerda e com muita fake news, tem razão, se não tivessem tantas fake news, eu teria sido eleito no primeiro turno".

A próxima etapa da viagem de Bolsonaro, depois de deixar o Catar, será Riad, na Arábia Saudita.

Maia parabeniza Fernández

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), parabenizou Alberto Fernández e ressaltou que ele foi eleito democraticamente e é necessário respeitar o resultado.

"Parabenizo o presidente eleito, pela vitória democrática. Parabenizo também o novo Congresso. Nossa felicidade que a democracia argentina está viva e de forma livre elegeu seus novos governantes", disse Maia, após evento da Câmara Espanhola de Comércio no Brasil, onde recebeu o prêmio de personalidade brasileira.

Ele afirmou que a relação entre Brasil e Argentina tem de ser de parceria permanente. "Brasil e Argentina têm interesses muito próximos, no agronegócio, no mercado de grãos. O mercado argentino é o terceiro mais importante para o Brasil. É preciso respeitas as eleições nos outros países, de forma democrática", destacou.

O presidente em exercício, Hamilton Mourão (PRTB), disse que não cumprimentou Alberto Fernández. Segundo ele, a decisão sobre conversar com o argentino cabe ao presidente Bolsonaro. "Não vou atravessar o samba nisso aí", declarou. ​/ Com Bárbara Nascimento e Mateus Vargas

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