Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS
Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS

Bolsonaro, na defensiva, tenta 'greenwashing'; leia análise

Diante do novo interlocutor, o presidente brasileiro fez uma fala acovardada e absolutamente destoante em relação ao que realmente pensa e coloca em prática diariamente

João Paulo R. Capobianco*, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 14h00

O presidente Jair Bolsonaro mudou o tom. Sua fala na Cúpula de Líderes sobre o Clima foi completamente diferente do discurso radical e absolutamente incoerente, carregado de contradições e dados inverídicos, que fez na abertura da 75ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), há apenas oito meses atrás. De lá para cá, houve apenas uma mudança: Donald Trump foi substituído por Joe Biden

Diante do novo interlocutor, o presidente brasileiro fez uma fala acovardada e absolutamente destoante em relação ao que realmente pensa e coloca em prática diariamente, por meio das ações de seu ministro do Meio Ambiente. No entanto, mesmo buscando ser mais ponderado, não conseguiu deixar de ser Bolsonaro. Primeiro, tentou mediar com sua base radical trazendo as velhas e ultrapassadas afirmações de que o Brasil tem baixa contribuição histórica nas emissões, emite “apenas” 3% e que as responsabilidades de reduzi-las são comuns, porém diferenciadas. Segundo, faltou com a verdade ao omitir que figuramos entre os maiores emissores e que aumentou em 9,5% a liberação de gases de efeito estufa no primeiro ano de seu governo, fazendo o País retroceder ao patamar próximo a 2006. 

Sem ter o que apresentar, visto que não há nenhuma iniciativa concreta em curso no Brasil para reverter a aceleração do desmatamento da Amazônia e Cerrado, principal fonte de nossas emissões, se apoderou de conquistas e compromissos de governos anteriores. Essa foi, talvez, a maior surpresa. Ao invés de desancar seus antecessores como sempre faz, reconheceu os feitos dos últimos 15 anos na redução das derrubadas que, segundo afirmou, evitam que bilhões de toneladas de gases estufa fossem despejados na atmosfera. Resultado que ele tem feito de tudo para anular.

Surpreendeu ao elogiar a NDC brasileira, destacando que ela contém compromissos absolutos, mas só apresentou os relativos, ou seja, redução em relação a 2005 de 37% e 40% das emissões nos anos de 2025 e 2030, respectivamente. Desta forma, descaradamente omitiu que reduziu as metas absolutas ao reapresentar a NDC no final do ano passado, elevando o teto de emissões líquidas de 1,3 GtCO2e para 1,8 GtCO2e em 2025 e de 1,2 GtCO2e para 1,6 GtCO2e em 2030.

Mesmo sendo quase impossível acreditar em uma mudança concreta, que sinalize uma inflexão nas políticas públicas do atual governo brasileiro, a pressão sobre Bolsonaro é um dos resultados mais importantes da Cúpula de Biden.

*É VICE-PRESIDENTE DO INSTITUTO DEMOCRACIA E SUSTENTABILIDADE.

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