Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Bolsonaro precisará cumprir promessas para receber apoio financeiro de outros países, diz embaixador

'Não virá um tostão sem comprovação de resultado', afirma Rubens Barbosa

Entrevista com

Rubens Barbosa, embaixador

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 15h00

Apesar de ter reiterado as posições defensivas do ministro Ricardo Salles e seu discurso equivocado sobre as conquistas ambientais brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro apresentou nesta quinta-feira, 22, na Cúpula do Clima 2021, uma série de propostas para ajustar a política ambiental do País. E agora está publicamente comprometido com elas, disse o embaixador e diretor-presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice)Rubens Barbosa. "Não virá um tostão sem comprovação de resultado", disse o embaixador em entrevista ao Estadão. "Sobretudo na questão do desmatamento, da queimada e do garimpo, pois são atos ilegais que estão sendo cometidos no País." 

Como o sr. avalia o discurso do presidente Jair Bolsonaro?

Eu achei o discurso positivo. Primeiro, porque agora ele (Bolsonaro) está publicamente comprometido, sobretudo com relação ao fortalecimento de órgãos ambientais e combate ao desmatamento ilegal. Antes, ele não estava comprometido, muito pelo contrário. Agora precisará fazer todas as modificações que prometeu a esses países e apresentar os resultados, pois, sem esses resultados, ninguém vai dar nenhum apoio financeiro ao Brasil.

Acredita que o discurso do presidente na cúpula convenceu Joe Biden e os demais líderes? 

O presidente repetiu as posições defensivas do Ricardo Salles e o discurso das conquistas ambientais brasileiras. É uma retórica, todos os presidentes têm. Apesar de ter reiterado a retórica defensiva e dessas conquistas ambientais, Bolsonaro apresentou algumas propostas para preservação da Amazônia e para ajustar a política ambiental do País. 

O discurso é um primeiro passo para mudar a imagem do Brasil em âmbito internacional?

A credibilidade e a imagem do Brasil só vão mudar quando o Brasil apresentar resultados concretos. Como Bolsonaro tem um gap de credibilidade, ele vai ter de demonstrar aquilo que prometeu. Se o orçamento for aprovado e ele não repassar aos órgãos ambientais, todos vão cobrar, principalmente os ambientalistas. Acho que precisamos esperar antes de criticar. O prazo de Bolsonaro é curto, já que teremos eleições no ano que vem. Mas para receber qualquer recurso estrangeiro, ele vai precisar demostrar o que prometeu. 

O que achou do presidente condicionar a preservação ao repasse estrangeiro?

É uma posição do (Ricardo) Salles. Mas não virá um tostão sem comprovação de resultado. Não haverá nenhum recurso de empresas ou governo para o Brasil sem que esses compromissos comecem a ser executados, sobretudo na questão do desmatamento, da queimada e do garimpo, pois são atos ilegais que estão sendo cometidos no País

Sentiu falta de algum ponto no discurso?

Acho que não deveria ter feito a vinculação com recursos financeiros de outros países, deviam fazer a partir dos resultados. E achei que foi positivo a referência às comunidades indígenas, que ele nunca havia mencionado, e agora é possível cobrar esse ponto. Bolsonaro deu um roteiro para a sociedade brasileira cobrar dele providências para a Amazônia.

O que o sr. achou do discurso de Joe Biden? 

Biden não tem controle sobre o que cada um dos presidentes fala. Mas ele teve liderança para marcar reunião, convidar as pessoas. E todos apareceram. Ele colocou a agenda do meio ambiente, da mudança de clima e da Amazônia na agenda global. É preciso ver também que Biden tem um interesse não só ambiental com essa agenda, mas comercial e econômica. Ele colocou o meio ambiente no centro da política econômica, externa e de defesa americana. Quer, agora, recuperar o tempo perdido em relação à China, que está muito na frente em termos de produção de equipamentos para o meio ambiente. O objetivo é ambiental, mas também político, de recuperar o tempo perdido por Trump e colocar os Estados Unidos na vanguarda da agenda ambiental, e comercial, de recuperar o espaço perdido para a China.

Qual o significado da cúpula? 

A cúpula foi muito importante para colocar os Estados Unidos de volta ao centro dos acontecimentos em relação ao meio ambiente. A cúpula ainda dá uma força para a preparação adequada das diferentes conferências internacionais que vão haver neste ano, como a cop26 e outras reuniões do g20 e g7. E essa cúpula inicial dá força, visibilidade e coloca alguns países como o Brasil e a Indonésia, que têm florestas tropicais, em uma posição de ter que apresentar resultados. É uma oportunidade para o Brasil começar a mudar sua retórica e a política em relação aos ilícitos da Amazônia. 

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