Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS
Marcos Correa/Brazilian Presidency via REUTERS

Bolsonaro segue script para cúpula do clima e aproveita para passar o pires; leia a análise

No mundo político é clara a divisão entre discurso e ações. Ainda que as promessas de Bolsonaro em relação à diminuição do desmatamento sejam otimistas, a atuação do atual governo não segue a mesma linha

Célia Froufe / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 11h48

O presidente Jair Bolsonaro falou o previsto durante a Cúpula de Líderes sobre o Clima, capitaneada pelo americano Joe Biden. Nos três minutos de pronunciamento a que tinha direito - assim como os demais 40 chefes de Estado e de governo e outras autoridades - ele repetiu de forma sucinta a carta enviada há alguns dias ao governo dos Estados Unidos. Convenceu? A resposta quase certeira é a de que não ou pelo menos não aos 100% dos demais líderes e audiência. Aproveitando a vitrine, passou o pires, defendendo que as ações feitas pelo Brasil devem ser remuneradas.

No mundo político é muito clara a divisão entre discurso e ações práticas. E, ainda que as promessas de Bolsonaro em relação à diminuição do desmatamento sejam otimistas, a atuação do atual governo não necessariamente segue a mesma linha. De qualquer forma, a participação do presidente brasileiro era aguardada.

Primeiro, porque a Amazônia é “o” símbolo de tudo o que envolve sustentabilidade no Planeta Terra. Depois, porque sua presença no evento virtual foi tratada quase que como uma surpresa, dada a convicção do governo doméstico de que, ao contrário do que gritam representantes de vários setores em todo o mundo, o trabalho ambiental local é bem feito.

 Após anunciar que pretende cortar a emissão de carbono do país pela metade até o fim desta década, Biden avisou que a pretensão da cúpula era a de que cada país dissesse o que pode fazer para proteger o meio ambiente.

Décimo oitavo líder estrangeiro a se pronunciar no evento, Bolsonaro ressaltou que Brasil é um dos poucos países a adotarem metas de redução de emissões e enfatizou que determinou a obtenção da neutralidade climática no País até 2050. Aproveitou a oportunidade para “passar o pires” e reforçar que os serviços ambientais brasileiros prestados ao bioma do planeta devem ser remunerados.

 Biden já não estava presente quando o brasileiro falou. Ele se retirou do local quando o presidente da Argentina, Alberto Fernández, o 15º líder estrangeiro a se pronunciar, iniciou o seu discurso.

A criação da cúpula sobre o clima pelo governo americano extrapola as preocupações específicas sobre o tema. Tem um sentido geopolítico de mostrar que a maior potência econômica e bélica do mundo ainda ocupa este lugar e, pelo fato de ter angariado tantos líderes, comprova a deferência que gera no globo.

Principalmente depois que o país ficou “marginalizado” nas questões sobre o clima com a postura mais negacionista do ex-presidente Donald Trump sobre o aquecimento global. A volta dos EUA para a “linha de frente” das discussões sobre o clima foi, inclusive, um dos pontos destacados durante a fala do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson. Da mesma forma, a chanceler alemã Angela Merkel comemorou o retorno dos Estados Unidos ao debate.

Com a Cop26, na Escócia, transferida de 2020 para 2021 por causa da pandemia, a criação do evento americano foi uma forma de a nova administração da Casa Branca marcar posição nesse tema. A liderança inegável do país ganhou mais uma sobrevida com a pandemia de coronavírus.

Ainda que mais cedo ou mais tarde a China deva passar ao posto de número 1 do mundo, o crescimento sem precedentes que a atividade local deve ter este ano manterá a economia do país como a mais pujante por mais algum tempo. E justamente por entender o papel atual e futuro da China, Xi Jinping foi o primeiro líder estrangeiro a se pronunciar e, como fez desde o Fórum Econômico Mundial de Davos, ainda em 2017, defendeu o multilateralismo. Mas passou o seu recado: as nações desenvolvidas devem elevar metas para o clima e ajudar países emergentes.

Cooperação, união, foco para mudar o futuro e rapidez nas ações foram palavras que se repetiram nos mais diversos discursos de líderes ao redor do mundo. Delas, Bolsonaro também engrossou o coro nesse sentido. A grande preocupação do mundo com a gestão brasileira, no entanto, é a de que o País não faça o suficiente e nem ouça com atenção a ciência.

Biden disse em seu discurso que o resultado apurado pela ciência sobre o clima até agora é inegável: “Realmente não temos escolha, temos que fazer isso agora.” E o primeiro-ministro italiano, Mario Draghi, acrescentou: “Temos que agir agora, para não nos arrependermos depois”.

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