Jabin Botsford/W. POST
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Bolton diz que Trump congelou ajuda à Ucrânia por investigação sobre Biden

Livro do ex-conselheiro de Segurança Nacional amplia pressão em processo de impeachment de presidente dos EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 10h14
Atualizado 27 de janeiro de 2020 | 15h54

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse em agosto ao ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca John Bolton que queria congelar o auxílio de segurança à Ucrânia até que as autoridades do país europeu ajudassem nas investigações de democratas, incluindo o ex-vice-presidente Joe Biden, informou o New York Times nesta segunda, 27.  Pelo Twitter, o presidente negou ter dito ao ex-conselheiro que a ajuda à Ucrânia estava condicionada à investigação

A declaração de Trump foi descrita em um manuscrito de um livro de memórias escrito por John Bolton. A divulgação do Times pode aumentar a pressão sobre os republicanos para convocar Bolton como testemunha no julgamento de impeachment de Trump no Senado.

Bolton revela em seu novo livro que Trump lhe disse pessoalmente que congelaria o auxílio de US$ 391 milhões aprovado pelo Congresso para a Ucrânia até que os ucranianos anunciassem investigações contra Joe Biden e Hunter Biden, que trabalhava para uma empresa de energia ucraniana enquanto seu pai estava no cargo.

O caso de toma lá dá cá envolvendo os ucranianos é a denúncia central no processo de impeachment contra Trump levado pelos democratas e atualmente sendo julgado no Senado dos Estados Unidos.

A reportagem, que não citou diretamente o manuscrito, mas várias pessoas que descrevem o relato de Bolton, pode minar um elemento-chave da defesa de Trump: que não houve contrapartida quando ele pediu ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, durante um telefonema em julho, para investigar Biden e seu filho Hunter Biden.

O livro apresenta um esboço do que Bolton poderia dizer se fosse convocado para testemunhar no julgamento de impeachment no Senado. A Casa Branca pode usar o processo de revisão pré-publicação, que não tem prazo definido, para atrasar ou até sufocar a publicação do livro ou omitir passagens importantes.

Convocação de Bolton como testemunha

A reportagem gerou demandas de democratas para a convocação de Bolton como testemunha pelo Senado, que está conduzindo um julgamento sobre a destituição de Trump do cargo após aprovação de impeachment em 18 de dezembro pela Câmara dos Deputados. O Senado é controlado pelos republicanos.

Os democratas precisam conquistar pelo menos quatro republicanos do Senado para aprovar a convocação de testemunhas. Bolton disse neste mês que estava disposto a depor no julgamento se uma intimação do Senado fosse emitida.

Em dezenas de páginas, Bolton descreveu como o caso na Ucrânia se desenrolou ao longo de vários meses até sua saída da Casa Branca em setembro. Ele descreveu não apenas a depreciação privada do presidente da Ucrânia, mas também novos detalhes sobre altos funcionários do gabinete que tentaram publicamente evitar o envolvimento.

O secretário de Estado Mike Pompeo reconheceu em particular que o advogado do presidente, Rudolph Giuliani, não fundamentou as alegações de que a embaixadora americana na Ucrânia era corrupta. Pompeo disse a Bolton acreditar que Giuliani poderia estar agindo em nome de outros clientes, teria escrito Bolton no livro, segundo o Times.

Bolton também disse que, após o telefonema de Trump para o presidente da Ucrânia, em julho, que desencadeou toda a celeuma, ele alertou o procurador-geral William Barr sobre suas preocupações com Giuliani, que estaria agindo nas sombras na Ucrânia incentivado pelo presidente.

E o chefe de gabinete interino da Casa Branca, Mick Mulvaney, esteve presente em pelo menos um telefonema em que o presidente e Giuliani discutiram a questão da demissão da embaixadora, escreveu Bolton. Mulvaney diz que sempre se afastou quando o presidente falava com Giuliani, para proteger o privilégio advogado-cliente.

Impeachment de Trump no Senado

Apesar do conteúdo, analistas acreditam que é pouco provável que a divulgação altere o processo de impeachment.

Os republicanos deixaram claro que não pretendem convocar testemunhas para depor. Como Trump dispõe de maioria confortável no Senado – e a condenação exige o voto de dois terços dos senadores –, dificilmente as revelações de Bolton mudam o quadro que aponta para a absolvição de Trump. 

Em um comunicado, um advogado de Bolton sugeriu que a descrição do Times é precisa e disse que havia submetido o manuscrito de Bolton ao Conselho de Segurança Nacional em 30 de dezembro -- uma revisão de segurança padrão para informações confidenciais.

"Está claro, lamentavelmente, com a reportagem do The New York Times publicada hoje, que o processo de revisão de pré-publicação foi corrompido e que as informações foram divulgadas por pessoas que não estavam envolvidas na revisão do manuscrito", disse o advogado Charles Cooper.

Os advogados de Trump retomaram nesta segunda-feira sua defesa no julgamento de impeachment decorrente das negociações do presidente com a Ucrânia. Uma votação final sobre a convocação de testemunhas pode ocorrer mais para o fim da semana.

 

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