Brendan Smialowski / AFP
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Bolton diz que Trump é inadequado para cargo e alega delitos abrangentes em livro

Ex-conselheiro de Segurança Nacional afirma que Trump demonstrou um 'comportamento fundamentalmente inaceitável que erodiu a própria legitimidade da presidência', como sua obsessão em entregar um CD de Elton John a ditador norte-coreano

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2020 | 16h09

WASHINGTON - John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, disse que o presidente dos Estados Unidos é inadequado para o cargo, de acordo com uma entrevista divulgada nesta quinta-feira, 18, depois que trechos do seu livro revelaram um quadro devastador de seu antigo chefe.

“Não acho que ele seja adequado para o cargo”, disse Bolton em uma entrevista à rede ABC News. “Não acho que ele tenha competência para realizar o trabalho.”

Um dos falcões de longa data da política externa americana que deixou a Casa Branca em setembro, ele acusou o presidente de cometer delitos abrangentes ao buscar a reeleição, incluindo pedir explicitamente a ajuda do presidente chinês, Xi Jinping, de acordo com partes de seu relato dos bastidores incluídos no livro The Room Where It Happened (“A Sala Onde Tudo Aconteceu”, em tradução livre).

Trump também demonstrou disposição de deter investigações criminais para favorecer ditadores dos quais gosta, disse Bolton em trechos publicados em vários grandes jornais na quarta-feira, que alegam acusações de má conduta muito mais vastas do que aquelas que motivaram o inquérito de impeachment de Trump.

Republicano que busca a reeleição em 3 de novembro, Trump se enfureceu com as alegações e atacou o caráter de Bolton, rotulando o ex-conselheiro de “mentiroso” e “lesado”.

O Departamento de Justiça dos EUA abriu um processo para impedir Bolton de publicar o livro, citando riscos para a segurança nacional, mas a editora Simon & Schuster refutou as acusações e disse que milhares de cópias já foram distribuídas.

Trechos foram amplamente divulgados nos jornais Wall Street Journal, Washington Post e New York Times.

No livro de memórias, Bolton citou diversas conversas nas quais Trump demonstrou um “comportamento fundamentalmente inaceitável que erodiu a própria legitimidade da presidência”.

“Na verdade, não existe nenhum princípio orientador que eu tenha conseguido discernir, a não ser o que é bom para a reeleição de Donald Trump”, disse Bolton à ABC News.

Em junho de 2019, Trump disse a Xi para ir adiante em seus campos para sua minoria majoritariamente muçulmana uigure e outros grupos muçulmanos, apesar das críticas do governo americano às detenções em massa na China.

Em uma reunião no verão de 2019 em New Jersey, Trump fez alguns de seus comentários mais alarmantes até hoje a respeito da mídia, dizendo que jornalistas deveriam ser presos para divulgarem suas fontes e até “executados”, segundo relatos de Bolton.

O ex-assessor conta ainda que Trump acreditava que a Venezuela era “de fato parte dos EUA” e que seria “bacana” invadir o país. “Durante reunião no Pentágono, em março de 2019, Trump deu uma bronca no comando militar, questionando por que os EUA mantinham tropas no Afeganistão e no Iraque, mas não na Venezuela”, escreveu Bolton. 

CD de Elton John virou prioridade de estado 

O livro também retrata algumas situações embaraçosas de Trump. Bolton conta que por muitos meses, o presidente dos EUA ficou obcecado pela ideia de entregar ao líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, o CD Rocket Man, de Elton John, autografado pelo cantor. 

Depois de apelidar Kim de 'rocket man' (homem foguete) por causa de seu programa nuclear, Trump quis depois convencer o ditador de que se tratava de um apelido carinhoso. 

Segundo Washington Post, Trump teria pedido ao secretário de Estado, Mike Pompeo, que entregasse o CD a Kim numa cúpula de líderes, em 2018, mas ele não fez. Nos meses seguintes, a entrega do CD, segundo Bolton, passou a ser uma 'prioridade de estado'./ Reuters e W. Post 

 

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