Kevin Lamarque / Reuters
Kevin Lamarque / Reuters

Bolton empresta a Trump uma visão sombria do mundo

Assessor do presidente em política externa acredita que os EUA podem usar a força em qualquer parte do hemisfério ocidental

Fareed Zakaria, The Washington Post

06 de maio de 2019 | 05h00

Compreender a política externa de Donald Trump é um desafio, já que o presidente escreveu e falou pouco sobre o assunto durante a maior parte de sua vida. Então, como entender sua concepção do mundo? Existe uma Doutrina Trump?

Michael Anton, ex-funcionário da segurança nacional de Trump, acredita que existe, e explica isso em um novo ensaio na Foreign Policy. A doutrina Trump, argumenta Anton, é simples: “Vamos todos colocar nossos próprios países em primeiro lugar, ser sinceros sobre isso e reconhecer que não há razão para nos envergonharmos”.

Sobre isso, Daniel Larison responde no American Conservative, “Isso não é uma doutrina. É uma banalidade”. Que país não coloca seus próprios interesses em primeiro lugar? Qual presidente defendeu preferência dos “interesses globais” em detrimento dos americanos?

Anton delineia um certo tipo de conservadorismo nacionalista que parece estar no centro da visão de mundo de Donald Trump. Mais importante - uma vez que Trump raramente é coerente e pode mudar de ideia amanhã - reflete as opiniões do homem mais próximo a ele sobre política externa, o conselheiro de segurança nacional, John Bolton.

Bolton tem sido de várias formas descrito como um neoconservador, um paleoconservador e um falcão conservador. Na verdade, ele é simplesmente um conservador, no sentido mais antigo e clássico, alguém que tem uma visão sombria da humanidade. Como um ex-funcionário dos EUA disse à New Yorker, Bolton acredita que a famosa descrição de Thomas Hobbes sobre uma vida sem ordem se aplica precisamente à vida internacional - “desagradável, embrutecida e curta”.

Bolton acredita que, para se proteger e projetar seu poder, os Estados Unidos devem ser agressivos, unilaterais e militantes. Bolton parece compartilhar a visão de mundo que animava Dick Cheney, que depois do 11 de Setembro falou abertamente sobre a necessidade de “trabalhar... o lado negro” e “usar quaisquer meios a disposição, basicamente para alcançar nossos objetivos”.

Existem alguns no establishment da política externa que acreditam que uma Rússia revanchista representa uma grave ameaça à América. Outros se preocupam com a ascensão da China ou com um Irã ideológico. Para Bolton, é tudo isso e muito mais. Em vários pontos, ele advertiu sombriamente sobre a ameaça mortal imposta aos Estados Unidos por Cuba, Líbia, Síria e, é claro, pelo Iraque. Um fã de longa data da mudança de regime, ele recentemente rotulou Cuba, Venezuela e Nicarágua de um “triângulo do terror” e disse que os EUA “esperam ver cada canto do triângulo cair”. Parece que ele quer que eles caiam não para levar a uma era de democracia, mas porque resistem ao poder e influência americanos. “A Doutrina Monroe está viva e passa bem”, disse Bolton a Dexter Filkins, da New Yorker. “É o nosso hemisfério.”

Esse tipo de conservadorismo acredita que vale a pena buscar os interesses nacionais não porque são virtuosos - sobre democracia e liberdade - mas porque são americanos. Essa visão se origina em um chauvinismo cultural e pode facilmente metamorfosear-se em racismo.

E para ter certeza, uma funcionária do Departamento de Estado, Kiron Skinner, explicou esta semana que o desafio ao se confrontar a China é que ela é “um grande rival que não é caucasiano”. Ela observou: “A competição com a União Soviética foi, de certa forma, uma luta dentro da família ocidental”.

Por onde começar? A Guerra Fria foi uma luta existencial porque a União Soviética acreditava que tinha uma ideologia superior para explicar economia, política e sociedade, e ela iria se impor ao restante do mundo. Por isso, foi chamada de “totalitarismo”. A ascensão da China ao poder é o processo padrão pelo qual uma nova potência econômica tenta encontrar um espaço no cenário internacional. O sistema da China, aliás, é em grande parte uma mistura de duas ideias ocidentais, capitalismo e comunismo - Adam Smith e Marx - e é por isso que Nicholas Kristof, do New York Times, o descreveu apropriadamente como “leninismo de mercado”.

Pela lógica de Skinner, tínhamos mais em comum com a ideologia de Hitler do que com os chineses, porque os nazistas eram caucasianos, o que é tanto historicamente desinformado como moralmente grotesco.

O problema mais prático da visão de mundo de Cheney-Bolton é que ela é profundamente imprecisa. O mundo não é desagradável, embrutecido e curto. A vida melhorou imensamente nos últimos 100 anos. A violência política - mortes por guerras, guerras civis e terrorismo - despencou. E isso aconteceu em grande parte porque os seres humanos também têm os genes para cooperar, competir pacificamente e avaliar os custos da guerra contra seus benefícios.

Bolton diz que ele pode muito bem invocar o “Corolário de Roosevelt” para a Doutrina Monroe - segundo o qual os EUA podem usar a força unilateralmente em qualquer parte do hemisfério ocidental. Se ele o fizer, qual é o argumento contra a Rússia fazendo o mesmo na Ucrânia; a China no Mar do Sul da China e o Irã no Iêmen? Sem regras e normas, os EUA teriam que impedir militarmente todos esses esforços ou então aceitar um mundo de guerra e anarquia. Veja, a agressividade nacionalista funciona desde que você a pratique. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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