Bomba mata 18 e arrasa QG da ONU na Nigéria

Outras 60 pessoas ficam feridas no atentado de rebeldes islâmicos em Abuja, um dos piores da história da organização

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2011 | 00h00

A ONU sofreu ontem um dos piores atentados de sua história. A sede da organização em Abuja, capital da Nigéria, foi alvo de um ataque com carro-bomba que matou 18 e feriu mais de 60. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, admitiu que o número de vítimas poderá "aumentar consideravelmente". Insurgentes islâmicos, conhecidos como Boko Haram, reivindicaram a autoria do atentado.

O governo nigeriano suspeita que o grupo tenha atuado com a colaboração da Al-Qaeda, por causa da sofisticação do ataque. Se confirmado, este será o pior atentado terrorista financiado pelo grupo desde a morte de Osama bin Laden, em maio.

O ataque também confirma a transformação da ONU, depois de 60 anos, em um dos principais alvos de milícias para chamar a atenção mundial. A cúpula da entidade já reconhece que terá de adotar uma nova política de segurança para seus funcionários.

A década foi especificamente sangrenta para a entidade. O maior ataque contra a ONU ocorreu em 2003, quando o brasileiro Sérgio Vieira de Mello e outros 22 funcionários da entidade foram mortos na explosão de um carro-bomba em Bagdá. Em 2007, o escritório da ONU na Argélia foi também alvo de uma bomba. Mais de 40 pessoas morreram na tragédia, entre elas 17 funcionários da ONU. No ano passado, um ataque no Afeganistão matou seis funcionários.

Após o atentado de Abuja, mais de 60 pessoas foram levadas em estado grave para os hospitais. A Nigéria tem sido alvo de uma onda de ataques do grupo radical Boko Haram, que ontem confirmou a autoria do atentado em um telefonema à BBC. No idioma hausa, o nome do grupo significa "A educação ocidental é pecaminosa" e prega a aplicação da sharia na Nigéria.

Nos últimos anos, o governo nigeriano passou a conviver com ataques frequentes de insurgentes. Mas os principais alvos eram empresas de petróleo no Delta do Níger. Os grupos exigem maior participação nos lucros do petróleo. Nos últimos dias, os ataques estavam sendo dirigidos contra o governo, delegacias e bancos.

Na quarta-feira, 12 pessoas morreram depois de um outro ataque. Mas o atentado contra a ONU abre uma nova fase de violência na Nigéria.

Alvo potencial. A ONU confirmou que, um mês atrás, recebeu informações do serviço de inteligência da Nigéria de que a organização estava entre os potenciais alvos do grupo extremista. A entidade insiste que, desde então, reforçou a segurança de suas instalações e de seus voos pela África.

As medidas, porém, foram insuficientes. A explosão ocorreu ontem por volta das 10h30, quando o edifício atingido abrigava cerca de 400 funcionários. O carro-bomba atravessou dois portões de segurança do prédio e explodiu perto da recepção do prédio de cinco andares.

Um funcionário da ONU que estava no local falou com o Estado por telefone e confirmou que as pessoas que estavam próximas da recepção morreram na hora. Pedaços de corpos foram lançados até a rua. "Dezenas" ainda estavam presos nos escombros no início da noite. Havia rumores de que sete jornalistas, que haviam sido convocados para uma entrevista coletiva, estavam entre as vítimas.

À Associated Press, o funcionário do Unicef Michael Ofilaje confirmou que viu "numerosos corpos pelo chão". "Há muitos mortos", disse.

Europa, EUA e Brasil condenaram os ataques. O presidente Barack Obama qualificou o ataque de "covarde" e disse que ele indica a "falência da ideologia" defendida pelo grupo insurgente. O Conselho de Segurança da ONU condenou o ataque, que qualificou como "injustificável". "Esse é um ataque contra pessoas que dedicam suas vidas a ajudar os demais", disse o secretário-geral da ONU. No total, 26 agências da organização tinham seus escritórios no local.

O presidente nigeriano, Goodluck Jonathan, prometeu levar os responsáveis pelo ataque à Justiça e ordenou que a segurança dos prédios públicos fosse reforçada. Para a chanceler Viola Onwuliri, "não foi um ataque contra a Nigéria, mas contra a comunidade internacional".

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