Bomba nuclear saudita?

O país pode ter dinheiro, mas não tem capacidade nem para fabricar um carro

Fareed Zakaria, The Washington Post*, O Estado de S. Paulo

15 de junho de 2015 | 03h00

Entre os muitos aspectos enervantes do futuro do Oriente Médio, uma corrida armamentista nuclear seria o pior da lista. E tem sido com o objetivo de alimentar essa inquietude que a Arábia Saudita vem dando pistas periódicas indicando que, se as ambições nucleares do Irã não forem controladas, o país árabe pode ir em busca de armas nucleares. Na semana passada, o embaixador saudita em Londres fez nova ameaça explícita, alertando que “todas as opções serão levadas em consideração”.

Ora, vamos! A Arábia Saudita não vai construir uma arma nuclear. A Arábia Saudita não é capaz de construir uma arma nuclear. A Arábia Saudita não constrói nem mesmo um carro (após grandes esforços, espera-se que até 2017 o país tenha fabricado seu primeiro automóvel).

A Arábia Saudita é capaz de cavar buracos no chão e bombear petróleo para fora deles, mas pouco além disso. A receita proveniente do petróleo corresponde a cerca de 45% do seu PIB, proporção altíssima, muito maior que a de Estados como Nigéria e Venezuela. A commodity é fonte de quase 90% da arrecadação do governo saudita. Apesar de décadas de intenso investimento do governo, generosos subsídios e energia barata, o setor manufatureiro é responsável por menos de 10% do PIB saudita.

Onde a Arábia Saudita treinaria os cientistas para trabalhar no seu programa secreto? O sistema de ensino do país é atrasado e disfuncional, entregue em boa parte ao establishment religioso puritano e reacionário. O país está na 73.ª posição nas classificações de ensino de matemática e ciência, de acordo com o Fórum Econômico Mundial – resultado baixíssimo para um país rico. O Irã, apesar de 36 anos de sanções e um PIB per capita muito inferior, conseguiu colocação bem melhor, na 44.ª posição.

E quem trabalharia na indústria nuclear imaginada para a Arábia Saudita? Num livro aprofundado, Karen Elliott House, que trabalhava para o Wall Street Journal, descreve o mercado de trabalho saudita: “De cada três pessoas na Arábia Saudita, uma é estrangeira. Duas de cada três pessoas empregadas em qualquer tipo de profissão são estrangeiras. E, no anêmico setor privado saudita, nove de cada dez pessoas empregadas são estrangeiras.

Em resumo, a Arábia Saudita é uma sociedade na qual um grupo demasiadamente grande de homens não deseja trabalhar nos empregos para os quais são qualificados; na qual as mulheres em geral não têm permissão para trabalhar; e onde, como resultado, a maioria dos trabalhos é feito por estrangeiros”.

A ideia não é sugerir que o reino estaria à beira do colapso. Longe disso. As finanças do regime são sólidas, embora o gasto público siga aumentando e a receita do petróleo esteja em queda. A família real fez uso habilidoso de clientelismo, política, religião e repressão para manter o país estável e submisso. Mas isso produziu para a maioria um sistema estagnado, no qual uma elite dourada surfa na crista da onda com quantidades de dinheiro inimagináveis.

A crescente assertividade da Arábia Saudita tem sido retratada como estratégica. Na verdade, trata-se de uma emotiva resposta de pânico ao Irã, alimentada em boa parte pelo velho preconceito antixiita.

Trata-se de orgulho ferido mascarado como estratégia. Em outubro de 2013, depois de investir anos e milhões de dólares fazendo campanha por um assento no Conselho de Segurança da ONU, a Arábia Saudita desistiu do posto no último minuto, indicando sua frustração com a política dos Estados Unidos para sua região.

Seu mais recente ativismo internacional, a campanha aérea no Iêmen, foi um tiro que saiu pela culatra. Bruce Ridel, ex-assessor do alto escalão da Casa Branca, diz que o estrago infligido a civis e à infraestrutura física “criou grande ressentimento entre os iemenitas e seus vizinhos mais ricos do Golfo, algo que vai prejudicar as relações entre ambos durante anos. Os iemenitas sempre demonstraram ressentimento em relação aos irmãos mais ricos; agora, muitos vão desejar vingança”. Ele destaca que a campanha aérea é dirigida pelo ministro da Defesa, o filho de 29 anos do rei, que não tem experiência em assuntos militares – nem em outras áreas.

Mas será que a Arábia Saudita não poderia simplesmente comprar uma bomba? Isso é muito improvável. Um esforço desse tipo teria de ser empreendido em segredo, sob ameaça de sofrer sanções, retaliação ocidental e interceptação. A Arábia Saudita depende muito de estrangeiros e suas empresas para administrar sua indústria energética, construir sua infraestrutura, comprar seu petróleo e vender bens e serviços. Se o país fosse isolado como ocorreu com Irã e Coreia do Norte, todo seu sistema econômico entraria em colapso.

Afirma-se com frequência que o Paquistão estaria disposto a vender armas nucleares aos sauditas. E é verdade que os sauditas ajudaram o Paquistão muitas vezes. Mas o governo de Islamabad sabe muito bem que tal acordo faria do país um pária, enfrentando sanções. É improvável que o Paquistão decida correr esse risco, nem mesmo para agradar seu facilitador em Riad. Em abril, o Paquistão recusou repetidos apelos dos sauditas pedindo sua participação na campanha aérea no Iêmen.

Ouso arriscar uma previsão: independentemente do que ocorrer com o programa nuclear iraniano, daqui a dez anos, a Arábia Saudita não terá uma arma nuclear. Porque o país é incapaz disso. (Tradução de Augusto Calil).

*É colunista

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