Bomba-relógio em ônibus no Paquistão mata 19 e fere 42

Veículo alvo do atentado levava vários funcionários do governo paquistanês; ataque ocorre em meio a mudanças na Al-Qaeda

ISLAMABAD, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2012 | 03h06

Uma bomba destruiu ontem um ônibus que transportava funcionários do governo paquistanês e civis na cidade de Peshawar, no mais violento atentado em meses no noroeste do Paquistão. Ao todo, 19 pessoas morreram e 42 ficaram feridas.

O explosivo foi colocado sob o ônibus e imagens da TV paquistanesa pouco após a tragédia mostravam o veículo dividido em dois, entre colunas da fuselagem retorcidas.

Segundo a polícia de Peshawar, a bomba tinha cerca de oito quilos e foi acionada por um relógio. Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado, mas a região, próxima do Afeganistão, é um dos principais redutos do Taleban e de células da Al-Qaeda.

Peshawar tem sido alvo de frequentes ataques nos últimos cinco anos, geralmente perpetrados pelo Taleban. No entanto, os atentados costumam ser desferidos contra forças de segurança do Paquistão. Ontem, sete mulheres foram mortas na explosão, segundo autoridades locais.

Mudança. O atentado em Peshawar ocorre em meio a uma transição interna na estrutura da Al-Qaeda, segundo especialistas e fontes de Washington.

A morte, esta semana, do vice-líder do grupo terrorista, Abu Yahya al-Libi, deve acelerar a transferência de poder na liderança do grupo no Paquistão para organizações afiliadas cada vez mais autônomas. Nessa transição, deve aumentar o espaço da filial da Al-Qaeda no Iêmen e os ataques lançados por ela contra interesses americanos deve continuar, segundo agentes do serviço de contraterrorismo dos EUA.

No momento, Ayman al-Zawahiri, líder nominal da Al-Qaeda, ainda exerce uma grande influência, consolidada desde a morte de Osama bin Laden, no ano passado. Mas a estrutura hierárquica da jihad global pode estar se afrouxando um pouco. A morte de Libi no ataque de um avião não tripulado (drone) eliminou o elo entre a liderança do grupo no Paquistão e os grupos filiados no Oriente Médio e África.

A morte do insurgente pode ser prenúncio de mais violência, uma vez que combatentes mais jovens e mais impetuosos competem para assumir a liderança global da rede, dizem analistas. E os primeiros da lista são os líderes da Al-Qaeda no Iêmen, oficialmente conhecida como a Al-Qaeda da Península Arábica, ou AQAP. No passado, a AQAP por três vezes tentou, sem sucesso, explodir aviões comerciais com destino aos EUA. O mais recente complô, no mês passado, foi frustrado porque o terrorista suicida designado para a ação, na verdade, trabalhava simultaneamente para agências de inteligência sauditas, britânicas e dos EUA.

Fora de cena. "A morte de Libi não teve impacto sobre a AQAP", afirmou Will McCants, ex-agente do Departamento de Estado dos EUA que agora trabalha para o Centro de Análises Navais.

Depois dos atentados de 11 de Setembro, a presença de Bin Laden ao lado de muitos membros fundadores da Al-Qaeda, no Paquistão, deu aos principais líderes do grupo mais experiência e prestígio aos olhos dos aliados. "Agora, com muitas das figuras conhecidas fora de cena, será difícil para aqueles que formam o núcleo da organização manter seu papel de 'exemplo' para seus filiados seguirem", disse um agente americano.

O próprio Bin Laden, de acordo com documentos que forças especiais recuperaram em sua casa em Abbottabad, Paquistão, preocupava-se com "a ascensão de líderes do escalão mais baixo sem experiência, o que levaria a uma repetição de erros". / REUTERS e THE NEW YORK TIMES

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.