''''Bomba-relógio'''' espera sucessor

Crise energética e inflação assombram economia argentina

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

22 de outubro de 2007 | 00h00

"Quando terminar o mandato, estaremos no último degrau do inferno, às portas do purgatório." Com esta referência à Divina Comédia, de Dante, o presidente Néstor Kirchner costuma ilustrar a crença de que durante seu governo a Argentina começou a sair da crise, embora sem chegar ao paraíso. No domingo, dia 28, os argentinos irão às urnas para escolher o sucessor de Kirchner, que se encarregará de administrar a "Argentina-purgatório". O candidato eleito, que tomará posse em 10 de dezembro, receberá um país com uma inédita seqüência de cinco anos consecutivos de crescimento econômico - o PIB, desde 2003, cresceu em média 8,7%, com anos superiores ao pico de 9% (em agosto, o crescimento foi de 9,2%) - e uma auto-estima recuperada. Mas, ao mesmo tempo, também vai se deparar com os problemas na economia que Kirchner empurrou para mais tarde. Como a crise energética, a inflação, e a galopante corrupção.As pesquisas de opinião indicam que a sucessora será a mulher do presidente, a senadora Cristina Fernández de Kirchner. Os analistas afirmam que não será fácil lidar com as "bombas-relógio" que Kirchner deixará. Os pessimistas alertam para o risco da volta ao inferno econômico. Metade do eleitorado - especialmente os menos abastados - diz que votaria na continuidade do modelo. Os escândalos de corrupção, embora afetem a imagem do governo, foram insuficientes para provocar uma rejeição. Segundo a Transparência Internacional, a Argentina piorou no ranking mundial da corrupção, passando do posto 92 em 2003 para o posto 105 em 2007. Entre as cascas de banana que Kirchner deve deixar está a crise energética, que pairava sobre o país desde 2004. Em 2007 aprofundou-se e provocou uma queda - embora leve - na produção industrial. O governo pouco fez para resolver a crise, que promete prolongar-se pelos próximos três anos.Outra é a inflação. O ex-secretário de Comércio Raúl Ochoa disse ao Estado que a "expectativa inflacionária" entre os argentinos é elevada. O governo afirma que a inflação acumulada nos nove primeiros meses deste ano é de 7,5%. Mas, economistas independentes sustentam que é superior a 25%. "Seja de 9% ou 20%, os argentinos costumam reagir mal à escalada inflacionária. Muito mal", diz Ochoa.Com o setor industrial, contudo, o clima é de flerte com os Kirchners. Apesar da crise energética e da falta de crédito, as indústrias florescem. O setor automotivo neste ano baterá recordes históricos, produzindo 550 mil veículos no ano. Ochoa considera que Cristina aprofundará a relação com o Brasil. "Mas com o presidente venezuelano, Hugo Chávez, o negócio é mais complexo. Ele é imprescindível para a superação da crise energética", completa.

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