Bombardeio atinge quarto de Arafat

Forças israelenses destruíram hoje três edifícios dentro do quartel-general do líder palestino Yasser Arafat, além de bombardearem seu quarto de dormir, em um ataque qualificado pelo Estado judeu como parte de uma série de represálias por um ataque extremista que deixou 18 mortos. O ataque de ontem, quando um jovem de 18 anos empregou uma nova técnica de atentado - ele emparelhou um carro repleto de explosivos com um ônibus israelense e os detonou -, levou a duas incursões israelenses e a uma promessa de que mais ações estão por vir, em um ciclo de violência que ameaça torpedear os recentes esforços internacionais para pôr fim a mais de 20 meses de violência no Oriente Médio. Em contraste com um cerco de mais de um mês encerrado em 2 de maio, o ataque de hoje contra o QG de Arafat em Ramallah durou apenas algumas horas. Porém, tanques israelenses e motoniveladoras gigantes abriram um enorme buraco na parede externa do complexo que ocupa um quarteirão inteiro e destruíram três prédios em seu interior, inclusive a sede do serviço secreto palestino. Arafat denunciou que os israelenses estavam tentando assassiná-lo. Um foguete israelense foi lançado contra o quarto de dormir do líder palestino, caindo a apenas 1,5 metro de sua cama. Apontando para sua cama coberta de poeira, um espelho quebrado e toalhas espalhadas, Arafat comentou: "Eu deveria ter dormido aqui na noite passada, mas tive que fazer alguns trabalhos no andar de baixo. É claro que os israelenses sabiam onde eu deveria estar. Todo mundo sabe onde fica meu quarto." O capitão Jacob Dallal, porta-voz do Exército de Israel, garantiu que Arafat não era o alvo. "Se houvesse alguma intenção de ferir Arafat, isto não seria nenhum problema", comentou Dallal. Ainda nesta quinta-feira, os israelenses invadiram Beituniya, um bairro de Ramallah, cercaram um edifício e detiveram seis homens. O Exército israelense informou que um dos detidos é o líder local do braço armado do movimento Hamas. Palestinos armados e soldados de Israel trocaram tiros durante a breve incursão. As forças israelenses deixaram Nablus após uma operação de uma semana para prender supostos terroristas e confiscar armas e explosivos. Em um tiroteio ocorrido hoje na Cisjordânia, um motorista israelense morreu, disseram fontes hospitalares. A vítima foi identificada como um estudante colegial de 18 anos que vivia em Ofra, um assentamento judaico construído entre Ramallah e Nablus. Após o atentado de ontem, as forças israelenses invadiram brevemente Jenin. O jovem suicida, Hamza Samudi, morava na cidade. O grupo extremista Jihad Islâmica reivindicou a autoria do atentado. Membros da Jihad Islâmica contaram que Samudi aprendeu a dirigir apenas quatro dias antes do ataque. Seus instrutores lhe ensinaram rapidamente a acionar o acelerador, o freio e a embreagem. Um dia antes do ataque, Samudi levou seu pai para dar uma volta no carro roubado dado a ele pela Jihad Islâmica, contaram seus vizinhos. A Autoridade Palestina, presidida por Arafat, condenou o atentado e ordenou a prisão de militantes da Jihad Islâmica. No entanto, Abdullah Shami, líder do movimento, continuava em sua casa em Gaza, aparentemente despreocupado. O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, voltou a culpar Arafat. "Esta é uma guerra cruel e impiedosa, guerra esta travada contra nós pela Autoridade Palestina e seu líder e que tem um alvo principal: romper a força de resistência de Israel" acusou Sharon.?Vou morrrer aqui? Após o ataque contra o ônibus, o atentado mais mortal desde que Israel promoveu uma ofensiva de seis semanas contra a Cisjordânia encerrada em 2 de maio, Sharon adiou sua partida rumo aos Estados Unidos, cancelando reuniões que teria durante o fim de semana em Nova York. Ele deverá encontrar-se com o presidente dos EUA, George W. Bush, na segunda-feira. O governo Bush enviou ao Oriente Médio dois funcionários do alto escalão para conversarem com líderes israelenses e palestinos na última semana, indicando que uma nova ofensiva diplomática estaria tomando forma. Mas a nova escalada de violência deverá reduzir a velocidade dos esforços ou até mesmo interrompê-los. O ministro israelense das Relações Exteriores, Shimon Peres, disse que Washington está trabalhando em uma fórmula segundo a qual Israel esvaziaria todos os assentamentos judaicos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Em troca, os palestinos não mais exigiriam o direito de retorno dos refugiados a suas casas originais em Israel. Funcionários do governo não comentaram o assunto. De acordo com eles, diversas idéias estão sendo analisadas. Após o ataque israelense contra o QG de Arafat, o Exército emitiu um comunicado no qual considera a Autoridade Palestina e seu líder "responsáveis por uma onda de terrorismo palestino que varreu o Estado de Israel". No comunicado, o Exército prometia dar seqüência a operações com o objetivo declarado de destruir a "infra-estrutura terrorista". No entanto, as incursões contra áreas palestinas que ocorrem quase todas as noites parecem não ser suficientes para contentar alguns israelenses, entre os quais figuram alguns ministros de gabinete. Eles pedem que Israel expulse Arafat dos territórios autônomos palestinos. Silvan Shalom, ministro das Finanças ligado ao partido Likud, de Sharon, disse à TV Israel que em breve todo o gabinete apoiará a expulsão de Arafat. "Quando eu levantei a idéia, fui considerado excêntrico." Raanan Gissin, porta-voz de Sharon, garantiu que, por enquanto a expulsão de Arafat não está sendo contemplada. "Sua expulsão não solucionaria o problema. Os serviços de segurança não consideram esta a solução mais eficaz. Trabalharemos de acordo com as recomendações de nossos serviços de segurança", disse ele. Arafat não parece preocupado com a ameaça de expulsão. Em conversa com jornalistas em frente a seu QG destruído, ele comentou: "Minha expulsão? Eu vou morrer aqui!"

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