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Ataques de Israel são declaração de guerra, diz Líbano

Ataques israelenses no sábado e no domingo tiveram como alvos forças iranianas e seus aliados no Líbano, Síria e Iraque e são, aparentemente, uma significativa escalada dos esforços de Israel para conter a expansão do Irã na região

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2019 | 17h33
Atualizado 27 de agosto de 2019 | 11h24

BEIRUTE - O Líbano considerou nesta segunda-feira, 26, os bombardeios do fim de semana, atribuídos a Israel, como uma “declaração de guerra”. Os ataques elevaram ainda mais a tensão no Oriente Médio e aumentaram o risco de uma guerra regional em múltiplas frentes. 

A declaração mais dura veio do presidente libanês, Michel Aoun. Ele equiparou as operações militares, principalmente o ataque de um drone no subúrbio de Beirute, a um “ato de guerra”. O primeiro-ministro do Líbano, Saad Hariri, presidiu uma reunião de gabinete para discutir “questões de segurança”, sem dar mais detalhes. 

Hariri afirmou que seu governo quer evitar uma escalada com Israel, mas pediu que a comunidade internacional rejeite as “escancaradas violações” da soberania libanesa por parte das forças israelenses.

Ataques contra forças apoiadas pelos iranianos em três países, todos atribuídos a Israel, elevaram a tensão no Oriente Médio no domingo, levando a ameaças de retaliações e intensificando temores de que um conflito maior possa eclodir na região. 

Os ataques ocorridos no sábado e no domingo tiveram como alvos forças iranianas e seus aliados no Líbano, SíriaIraque e são, aparentemente, uma significativa escalada dos esforços israelenses para conter a expansão da influência iraniana na região. Mas, ao mesmo tempo, podem colocar em risco a presença de tropas americanas no Iraque e atrair o Líbano para uma nova guerra. 

Os ataques estão envolvidos ao mistério que acompanha grande parte da tensão entre Israel e Irã. O governo israelense confirmou ser responsável apenas pelo primeiro ataque, no qual seus aviões de guerra atacaram, na noite de sábado, uma base que seria operada pelo Irã na Síria, segundo autoridades militares. A justificativa, segundo essas autoridades, era de que ali estava sendo preparando um grande ataque de drones contra Israel. O grupo Hezbollah informou que dois de seus membros foram mortos

Horas depois, um drone armado com explosivos atingiu um prédio que abrigava um centro de mídia do Hezbollah nos subúrbios de Beirute. O grupo acusou Israel de ter praticado o que seria o primeiro ataque israelense no Líbano desde a guerra de 2006 e afirmou que responderia derrubando drones israelenses em território libanês. Israel não confirmou ou negou responsabilidade.

Mais tarde no domingo, um comandante de uma milícia apoiada pelo Irã no Iraque foi morto por um ataque de drone na cidade de Al-Qaim, oeste do país, aumentando as tensões provocadas por uma série de ataques aparentemente realizados por militantes iranianos no Iraque. 

Todos esses incidentes contribuíram para uma escalada no confronto cada vez mais intenso entre Israel e as milícias apoiadas pelo Irã, que expandiram seu alcance no Oriente Médio nos últimos anos. Juntos, esses episódios sinalizam uma "nova era" na tentativa de Israel de impedir o avanço da presença do Irã na região, na avaliação de Hilal Khashan, professor de ciência política da Universidade Americana de Beirute.

"Os israelenses estão dizendo a todos que estão expandindo o alcance de seus ataques contra o Irã e seus aliados e mostrando que estão determinados a impedir que o Irã expanda sua influência no Oriente Médio", disse Khashan.

Visivelmente irritado em um discurso no domingo, o líder do Hezbollah, Hasan Nasrallah, classificou o ataque com drone contra o centro de mídia de "uma violação muito, muito perigosa" e disse que o Hezbollah revidaria a ele e às mortes de seus membros. 

Ele alertou ainda que o Hezbollah tentará derrubar qualquer um dos drones israelenses que sobrevoam rotineiramente o Líbano e alertou aos israelenses que vivem no norte de Israel a se prepararem para os ataques do grupo ao território israelense. Nasrallah é considerado um líder terrorista por Israel. 

"Essa é nova fase imposta pelo inimigo e estamos prontos para isso", disse ele no discurso transmitido por um telão para uma multidão de apoiadores do Hezbollah no Vale de Bekaa, leste do Líbano. "O que aconteceu ontem à noite (domingo à noite) não vai ficar sem resposta."

As alegações israelenses sugerem que o Irã já esteja planejando uma retaliação pelos recentes ataques contra instalações de armazenamento de armas no Iraque.

Os ataques israelenses na noite de sábado tiveram como alvo a cidade de Aqraba, a sudeste de Damasco, onde as Forças de Defesa israelenses disseram que a Força Quds iraniana e as milícias aliadas estavam preparando um "ataque em grande escala de vários drones assassinos em Israel".

A mídia estatal síria afirmou que as defesas aéreas sírias foram ativadas para interceptar o ataque e derrubar a maioria dos mísseis israelenses. Vídeos postados nas redes sociais mostraram um enorme incêndio e mísseis antiaéreos atravessando o céu noturno.

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, saudou o que chamou de "um grande esforço operacional". "O Irã não tem imunidade em nenhum lugar", escreveu ele no Twitter. "Se alguém se levantar para te matar, mate-o primeiro."

Israel atingiu centenas de alvos na Síria nos últimos sete anos, a maioria deles de forças iranianas ou ligados aos esforços do Irã para entregar armas sofisticadas ao Hezbollah no Líbano via Síria.

Essa é a primeira vez, no entanto, que Israel acusou o Irã de tentar um ataque em larga escala em território israelense. Se tal ataque tivesse ocorrido, poderia ter desencadeado uma guerra total.

Confirmar se tal ataque foi planejado é praticamente impossível, de acordo com o Washington Post. A Guarda Revolucionária do Irã, que comanda a Força Quds, negou que qualquer alvo iraniano tenha sido atingido na Síria.

"Isso é uma mentira", disse o major-general Mohsen Rezaei, segundo a agência de notícias iraniana Ilna. "Israel e os Estados Unidos não têm o poder de atacar os vários centros do Irã e nossas instalações de consultoria não foram prejudicadas."

Israel colocou seus militares em alerta máximo contra possíveis retaliações, disse um porta-voz militar.

No mês passado, Israel expandiu seus ataques ao Iraque, atingindo quatro bases de milícias apoiadas pelo Irã, onde armas estavam sendo guardadas. Oficialmente, o governo apenas deu a entender que era responsável, mas autoridades dos EUA e de Israel disseram aos meios de comunicação que forças israelenses realizaram os ataques, o primeiro do tipo no Iraque desde 1981.

O assassinato de um comandante do Hezbollah, no domingo, um dos maiores aliados do Irã no Iraque, também foi o primeiro. O ataque de drone na cidade de Al-Qaim, no oeste do Iraque, foi imediatamente atribuído a Israel, levando um dos blocos mais poderosos do Parlamento iraquiano a se mobilizar para pedir que as tropas americanas se retirassem do país.

A morte do membro do Hezbollhah representa um perigoso "ponto de virada", afirmou a coalizão Fatah, aliada ao Irã, em um comunicado. A coalizão citou as suspeitas que têm havido no Iraque de que os EUA estão dando assistência para os ataques israelenses e disse acreditar que a presença americana "não é mais necessária". 

Um porta-voz israelense não confirmou nem negou responsabilidade pelos ataques. O Exército americano tem respondido às alegações de envolvimento apontando que está no Iraque a convite do governo iraquiano e apenas para combater o Estado Islâmico. 

O governo israelense também não confirmou nem negou que está por trás do ataque contra o Hezbollah em Beirute. 

Informações iniciais do grupo apontam que o drone teria explodido acidentalmente no ar, mas Nasrallah afirmou em seu discurso que um drone armado com explosivos deliberadamente se chocou contra o prédio onde fica o escritório do grupo de mídia do grupo. 

Cerca de uma hora depois, disse ele, um drone menor sobrevoou a vizinhança do prédio e caiu depois que moradores locais atiraram pedras. O relato do Hezbollah não pôde ser confirmado de forma independente. Vídeos do local mostram janelas quebradas e danos à mobília do escritório do Hezbollah. / Reuters e W. POST 

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