Bósnios removem escombros após protestos violentos

Funcionários públicos e moradores de Sarajevo e de outras cidades da Bósnia-Herzegovina passaram o sábado limpando escombros, depois de manifestantes atearem fogo à sede da Presidência e a outros prédios públicos em manifestações violentas na sexta-feira. Algumas centenas de pessoas continuaram a protestar pacificamente na capital e em outras cidades contra a corrupção e o desemprego, que está perto de 40%.

AE-AP, Agência Estado

08 de fevereiro de 2014 | 19h49

Os governos locais de Sarajevo e de outras três cidades bósnia renunciaram. Um prefeito fugiu do país e vários políticos apareceram na televisão neste sábado, reconhecendo erros e prometendo promover mudanças antes das eleições gerais previstas para outubro. Os cidadãos comuns, porém, têm motivos para ceticismo.

A onda de privatizações que se seguiu à guerra civil de 1992/95, quando a Bósnia se separou do que restava da antiga Iugoslávia (que já havia diminuído com a separação da Croácia), dizimou a classe média e jogou os trabalhadores na pobreza, enquanto uns poucos magnatas enriqueciam. A corrupção é generalizada e os impostos altos, num país com um setor público inchado, consomem os salários. As disputas constantes entre políticos de etnias diferentes tornam o funcionamento das instituições do Estado mais difícil e prejudicam a ambição do país de entrar um dia na União Europeia.

"Essa insatisfação vem de longe. Os jovens que fizeram isso nasceram em uma sociedade pós-guerra e viram seus pais serem espoliados pelos magnatas nas privatizações criminosas. Eles cresceram olhando para a pobreza e a injustiça, sem a esperança de um futuro melhor", disse o ministro das Relações Exteriores, Zlatko Lagumdzija.

Ele pediu aos procuradores públicos para "varrerem a poeira" das investigações e dos processos sobre corrupção. Outros líderes políticos culparam uns aos outros, os efeitos da guerra ou a Constituição do país.

A violência começou no meio da semana em Tuzla, no norte do país. A cidade, que já foi um centro industrial importante, foi ocupada por milhares de trabalhadores que protestavam com um processo dúbio de privatizações que os deixou sem empregos. Imagens de trabalhadores sendo presos e espancados pela polícia legaram as manifestações a se alastrar para mais de 20 cidades.

Cerca de 200 policiais e 100 manifestantes ficaram feridos nos confrontos de sexta-feira, quando prédios, entre eles o da Presidência, em Sarajevo, foram queimados. Outros prédios governamentais foram destruídos. Pelo menos 100 pessoas foram presas, em sua maioria adolescentes. Entre as cidades onde sedes de governos locais foram destruídas estão Zenica, Mostar e Travnik.

No sábado, moradores saíram às ruas de Tuzla para remover escombros. "Acho que isso foi feito por vândalos, não por manifestantes de verdade. Não entendo por que os prédios tinham que ser queimados", disse a aposentada Ivica Murgic.

O complicado sistema político adotado na Bósnia ao fim da guerra civil é um dos obstáculos a reformas que poderiam melhorar a situação da população. A guerra, que deixou mais de 100 mil mortos, terminou sem vencedor, mas com um acordo de paz que dividiu o país etnicamente em uma federação bósnia-croata e uma república sérvia. Cada uma tem seu governo e seu Parlamento, e elas são ligadas por um governo central, com Parlamento e Presidência. A federação bósnia-croata se divide em dez cantões, cada um deles com um conjunto similar de instituições.

Isso significa que quase 4 milhões de pessoas são governadas por mais de 100 ministérios, em quatro níveis diferentes de governo - um sistema caro e ineficaz que os sérvios defendem por temerem que a centralização acabaria com sua autonomia. Fonte: Associated Press

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