Brasiguaios esperam fim da era de invasões

Produtores de origem brasileira foram alvo de sem-terra apoiados por Lugo

LOURIVAL SANTANNA / TEXTOS, CLAYTON DE SOUZA / FOTOS , ENVIADOS ESPECIAIS , SANTA RITA, PARAGUAI, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2013 | 02h03

Para os brasileiros e seus descendentes que trabalham nas terras férteis do Alto Paraná, Departamento (Estado) paraguaio que faz fronteira com o Brasil, as eleições de ontem representam o fim de um ciclo de invasões e perseguições, patrocinadas pelo ex-bispo Fernando Lugo, deposto pelo Senado em junho do ano passado. Sentindo-se abandonados e traídos pelo governo brasileiro, que não os apoiou quando suas terras foram invadidas, mas ficou do lado de Lugo quando ele foi destituído, os "brasiguaios", como são chamados, esperam que o novo presidente e Congresso paraguaios os protejam.

Eram 7 horas de 3 de agosto de 2011, uma quarta-feira. O brasileiro Gilmar Zwirtes e sua mulher paraguaia, Milka Zavala, tomavam café com os quatro filhos, quando os policiais e os "carperos" (acampados sem-terra) chegaram em dois ônibus e cinco caminhões.

Deram prazo até 9 horas para que desocupassem a propriedade de 5 hectares em Santa Rita, a 80 km da fronteira com o Brasil. A mãe de Zwirtes tinha sofrido derrame e estava de cama. "Não podem jogar minha família na rua, com tantos anos que vivo aqui", resistiu o agricultor, que veio de Marcelino Ramos (RS) em 1972, aos 8 anos, quando seu pai comprou 100 hectares, que depois repartiu entre os filhos.

Zwirtes telefonou para os vizinhos. Em poucos minutos, havia 500 pessoas na frente, impedindo a entrada dos policiais e carperos, conta o casal. "Criei-me na região, conheço todo mundo", diz Zwirtes, sorrindo com orgulho. Um total de 61 propriedades dos "colonos" brasileiros na região de Santa Rita foram objeto de ações de despejo, invasões ou ameaças. Elas são de diversos tamanhos, mas têm uma característica em comum: são produtivas. Os próprios paraguaios da região costumam reconhecer que os agricultores brasileiros são mais trabalhadores e dedicados à terra que os nativos.

O que chama a atenção no caso de Zwirtes é o tamanho de sua propriedade: 5 hectares. Trata-se de um agricultor familiar. Nessa área diminuta ele cultiva soja e milho, cria gado, porco e galinha, que vende nos mercados locais. Seu pai comprou a terra de uma imobiliária privada, e ele detém o título da parcela que herdou, assim como seus irmãos.

Por nenhum critério, Zwirtes e outros pequenos proprietários como ele seriam alvo de desapropriação para reforma agrária. A não ser pelo fato de serem brasileiros. O conflito no Alto Paraná não é apenas agrário: é nacionalista.

Antecedentes. As tensões envolvendo brasiguaios e sem-terra não são novas no Alto Paraná. Em agosto de 1999, por exemplo, a morte de um camponês paraguaio levou à fuga de 30 pequenos agricultores brasileiros, por medo de retaliações. O que mudou, com a chegada à presidência de Lugo, em 2008, foi que o Estado paraguaio, antes indiferente, passou a se engajar ativamente na ofensiva para expulsar os brasileiros de suas terras.

Soldados do Exército fizeram a demarcação das terras, e a Polícia Nacional, que transportou os carperos, apoiou invasões e ordens de despejo. Lugo pretendia pôr em prática uma lei segundo a qual a faixa de 50 km desde a fronteira não pode ser ocupada por estrangeiros - embora Santa Rita fique a 80 km. A onda de desapropriações representou uma oportunidade para extorquir dinheiro dos produtores brasileiros mais prósperos. Alfeu Lui, dono de 380 hectares, nos quais planta soja e milho e tem um empreendimento de piscicultura, afirma ter tido de pagar US$ 100 mil "à máfia" - um advogado e um juiz - para que fosse arquivada sua ação de despejo.

Sua fazenda foi invadida em 5 de maio de 2011, por cerca de 10 carperos, apoiados por 150 policiais, segundo Lui. A caseira foi arrancada à força da casa, puxada pelos cabelos, e seus móveis, arrastados para a estrada, segundo Lui, que saiu com 16 anos de Palotina (SC), em 1973, quando seu pai e dois irmãos mais velhos também compraram 100 hectares de uma imobiliária.

A destituição de Lugo representou um alívio para os fazendeiros brasileiros. "O problema acabou da noite para o dia", recorda Lui. Com a ofensiva do governo Lugo, muitos brasileiros despertaram para a necessidade de organizar-se politicamente.

Há 201.527 brasileiros no Paraguai, segundo o Consulado do Brasil em Ciudad del Este. Eles só podem votar nas eleições municipais. Já os seus descendentes, nascidos no Paraguai, que o consulado estima serem 150 mil, votam também para deputados departamentais, governadores, deputados nacionais, senadores e presidente - os cargos disputados ontem. Em Santa Rita, onde cerca de 70% dos 35 mil moradores são brasileiros e descendentes, há um vereador, Sidinei Heinemann, paraguaio filho de brasileiros vindos da zona rural de Chapecó (SC), em 1977.

Heinemann é do Partido Colorado, do ex-ditador Alfredo Stroessner, que incentivou a colonização da região leste do Paraguai pelos brasileiros, por meio de seu loteamento por imobiliárias, cujos corretores percorreram o sul do Brasil vendendo glebas de 25 hectares.

Agora, pela primeira vez há um filho de pai brasileiro candidato a deputado departamental: Fernando Schuster, que encabeça a lista colorada no Alto Paraná, depois de ter recebido mais de 49 mil votos nas internas do partido.

Assim como Heinemann, Schuster garante que o candidato colorado à presidência, Horacio Cartes, defende os interesses da comunidade brasileira. "Ele é o candidato do setor produtivo", argumenta Schuster, ex-presidente da Coordenadora Agrícola da região sul do Alto Paraná. Em contrapartida, ele lembra que Efraín Alegre, o candidato liberal, era ministro de Obras Públicas de Lugo.

Cartes encerrou sua campanha, na noite de quinta-feira, em um ginásio de esportes em Presidente Franco, no Alto Paraná, ao lado de Schuster, que nasceu em 1982 em Ciudad del Este, na época chamada de Ciudad Presidente Stroessner. A mãe de Schuster, a paraguaia Maria Victoria Salinas, é prefeita de Santa Rosa, e foi agredida pelos carperos durante a onda de invasões. Ele próprio enfrentou os soldados e carperos, arrancou marcos que o Exército estava colocando nas fazendas no município de Iruñea, em dezembro de 2011.

A maioria dos "brasiguaios" ouvidos pelo Estado torcia por Cartes, tanto pela contraposição a Lugo - como empresário rico e membro de um partido conservador - quanto por sua associação a Stroessner, que possibilitou a imigração brasileira. Mas há gradações. "Estamos apoiando a Lista 1 (colorada) do Sidinei, que apoia os colonos, porque um grupo manipulado por políticos sujos queria invadir nossas terras, agora que estão prontas", explicou João Inácio Pies, de 56 anos, que tem uma loja de semeadeiras importadas do Brasil.

"Os dois que estão liderando (as pesquisas) são gente boa", ponderou Zwirtes. "Efraín fez coisas boas, trouxe muita estrada. O problema era o outro", concluiu, referindo-se a Lugo. "Só quero que seja alguém que não me tire daqui", pediu Neusa Cappeletti, de 55 anos, dona de um restaurante em Santa Rita, que veio aos 21 anos de Nova Esperança (PR).

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