Pablo Duer / EFE
Pablo Duer / EFE

Brasil abre escritório comercial em Jerusalém e renova promessa de transferir embaixada

Em visita a Israel e ao lado do premiê Binyamin Netanyahu, Eduardo Bolsonaro volta a defender que governo brasileiro considere o Hezbollah, grupo xiita que faz parte da coalizão que governa o Líbano, como organização terrorista

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2019 | 14h40
Atualizado 16 de dezembro de 2019 | 11h40

JERUSALÉM - O Brasil abriu um escritório comercial em Jerusalém neste domingo, 15, na presença de Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, que confirmou a intenção de seu pai de transferir a embaixada do país para a Cidade Santa.

A transferência da embaixada para Jerusalém é uma promessa de campanha de Jair Bolsonaro e um aceno aos evangélicos. Após assumir, no entanto, ele recuou diante da reação dos países árabes. 

Em visita a Israel em março, o presidente brasileiro disse que a abertura em Jerusalém de um escritório da Agência Brasileira de Promoção de Comércio e Investimento (Apex) seria o primeiro passo para mudar a embaixada, atualmente em Tel-Aviv.

Em maio de 2018, os Estados Unidos transferiram sua embaixada para Jerusalém por decisão de Donald Trump e agora o Brasil pode seguir seus passos. O governo israelense tinha esperança de que a manobra levasse outros a fazer o mesmo, mas dos 86 países que mantêm missões diplomáticas em Israel apenas Guatemala realmente transferiu a embaixada para Jerusalém. O então presidente do Paraguai, Horacio Cartes, chegou a anunciar a mudança, mas a decisão foi revertida por Mario Abdo Benítez, que assumiu em agosto de 2018. 

Na cerimônia deste domingo, o deputado federal Eduardo Bolsonaro renovou a promessa e disse que seu pai ainda deseja mudar a embaixada. "Ele me disse que é certo, é um compromisso, vai transferir a embaixada para Jerusalém, fará isso", afirmou ele.

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, comemorou. "Apreciamos o comprometimento do presidente Bolsonaro. Primeiro, em abrir este escritório, que é algo que decidimos na visita dele. E seu compromisso de abrir a embaixada em Jerusalém, o que atende os interesses do Brasil e de Israel."

Hezbollah como organização terrorista

Durante o encontro, no Hotel King David, segundo o jornal The Jerusalem Post, Eduardo disse ainda que espera que o Brasil classifique o movimento xiita libanês Hezbollah como organização terrorista.

"Vamos combater o terrorismo juntos. Se você quer evitar um ataque terrorista, você tem que mostrar força. Quem comanda seu país é sua autoridade, não grupos terroristas. É por isso que, cedo ou tarde, iremos reconhecer o Hezbollah como um grupo terrorista", afirmou Eduardo.

O Hezbollah é um grupo xiita, apoiado pelo Irã, formado para combater a ocupação israelense do Líbano, nos anos 1980. Após a guerra civil, o grupo passou a cumprir múltiplas tarefas. Além de ser um partido político, que faz parte da coalizão que governa o país, ele também sustenta escolas e hospitais em áreas pobres, de onde tira grande parte de sua popularidade. 

Ao mesmo tempo, o Hezbollah tem um braço armado que atua na guerra civil da Síria e é acusado de planejar e executar vários ataques terroristas. Entre os atentados mais marcantes estão as duas explosões que mataram mais de 150 pessoas em Tiro, no sul do Líbano, em 1982 e 1983. Outra ação foi em 1994, contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em Buenos Aires, o pior atentado terrorista na história da Argentina - 85 pessoas morreram.

O Hezbollah já é considerado uma organização terrorista por vários países, entre eles EUA, Israel, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia. Desde julho, a Argentina e o Paraguai também classificam o grupo como terrorista. Outros, como a Alemanha, fazem uma distinção entre o braço armado, rotulado de terrorista, e o partido político.

A intenção de classificar o Hezbollah como organização terrorista não é nova e Bolsonaro já repetiu isso outras vezes. As relações históricas e políticas com o Líbano, porém, seriam um empecilho. 

Quase 10 milhões de libaneses e descendentes vivem no Brasil. Além disso, as Forças Armadas estão desde 2011 no comando da Unifil, a missão de paz da ONU no Líbano. A decisão de rotular o Hezbollah como grupo terrorista poderia colocar em risco os militares brasileiros servindo em território libanês.

Questão complexa

O status da cidade de Jerusalém é uma das questões mais complexas do conflito israelense-palestino. Israel ocupa a parte leste de Jerusalém desde a guerra de 1967 e depois anexou a região, um ato que nunca foi reconhecido pela comunidade internacional.

Os israelenses consideram toda a cidade como sua capital, enquanto os palestinos querem transformar Jerusalém Leste na capital do Estado a que aspiram. A maioria das embaixadas estrangeiras está localizada em Tel-Aviv, para não interferir nas negociações entre israelenses e palestinos.

"Queremos dar esse passo em Jerusalém, não apenas para o Brasil, mas como um exemplo para o resto da América Latina", disse Eduardo Bolsonaro. / AFP e REUTERS

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