Brasil atua para facilitar diálogo entre Washington e Havana

Com ?intermediação extraoficial?, equipe de Lula trabalha para aproximar rivais históricos

, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

Intermediária extraoficial da aproximação entre Havana e Washington, a equipe diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera que o presidente dos EUA, Barack Obama, concretize a prometida "guinada" na relação de seu país com Cuba. Em oportunidades bem aproveitadas na 5ª Cúpula das Américas, que termina hoje em Trinidad e Tobago, Lula e o chanceler brasileiro, Celso Amorim, deixaram claro ao líder americano e à secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, que é preciso partir para o "diálogo aberto e direto". Lula conversou com Obama nos minutos que antecederam a cerimônia de abertura da cúpula, na sexta-feira, quando todos os líderes aguardavam numa sala de espera. Amparados por um tradutor, ambos puderam falar tranquilamente sobre o tema sem a presença de ministros e assessores. Quase ao mesmo tempo, no salão oficial, Hillary sentou-se ao lado de Amorim. "Dei a ela a minha opinião de que, mais importante do que fazer gestos e cobrar gestos, neste momento é preciso partir para o diálogo aberto e direito", disse Amorim ao Estado. O ambiente favorável à retomada do diálogo entre EUA e Cuba foi construído nos cinco dias que antecederam a cúpula - apesar de o tema, oficialmente, não fazer parte da pauta. ACENOS À ILHANa segunda-feira, a Casa Branca anunciou o fim das restrições às viagens e remessas financeiras de cubano-americanos à Cuba. Dias depois, Obama reforçou sua disposição de negociar, mas pediu contrapartidas. No mesmo dia, o presidente de Cuba, Raúl Castro, afirmou estar interessado em "discutir tudo" com os EUA, desde a libertação de presos políticos até a liberdade de imprensa. Na noite de sexta-feira, Obama respondeu dizendo que os EUA desejavam um "novo começo" com a ilha. A mão do governo brasileiro mostrou-se presente em alguns desses momentos, embora o Brasil não tenha sido o único país a colaborar. Hector Morales, representante dos EUA para a Organização dos Estados Americanos (OEA), agradeceu ontem aos diplomatas brasileiros pelos conselhos de Lula sobre a melhor maneira de lidar com Chávez. O assessor da presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, admitiu ao Estado ontem que o governo brasileiro "passou recados" entre Havana e EUA. Ele também disse que Cuba espera de Obama a nomeação de um enviado especial - um negociador oficial - para tratar da retomada da relação bilateral. Na quinta-feira, por telefone, Lula sugeriu a Obama que aceitasse essa ideia da nomeação apresentada pelo senador republicano Richard Lugar. "O discurso de Obama foi muito positivo e criou um bom clima, mas poderia ter sido melhor se ele tivesse anunciado mais medidas de interesse de Cuba", afirmou Garcia. CONTRAPARTIDASTanto Garcia quanto Amorim não acham legítimo pedir contrapartidas a Cuba, que sofre as consequências do embargo econômico dos EUA desde 1962. Para o assessor de Lula, o nacionalismo arraigado e a noção de soberania abortariam uma proposta de diálogo se ela viesse recheada de exigências de Washington. "Eles aguentaram o embargo por 50 anos e não vão ceder agora", afirmou Garcia. "Os cubanos estão cientes de que o governo Obama tem uma nova visão, mas essas coisas devem ser discutidas de maneira privada e direta." Os sinais emitidos por Obama em relação à América Latina impressionaram os dois chefes da política externa brasileira. Garcia considerou positiva a abordagem do americano. Para Amorim, ao reconhecer a diversidade da região e propor-se a ouvir seus líderes, Obama mostrou "humildade" e provou que quer mesmo "mudar" a maneira de os EUA tratarem os vizinhos. "Este é um momento diferente, inédito para a região", avaliou Amorim. "Obama demonstrou até uma certa humildade ao deixar claro que quer ouvir, entender e moldar uma relação de maior entendimento e compreensão das diversidades." TAPINHASEntre os gestos registrados pela diplomacia brasileira na abertura da Cúpula das Américas, um dos mais emblemáticos foi o fato de Obama ter-se levantado para cumprimentar Evo Morales, presidente da Bolívia. No ano passado, Evo ordenou a expulsão do embaixador americano de La Paz, Philip Goldberg, e os representantes da agência antidrogas dos EUA (DEA), sob acusação de golpismo. Para diplomatas que assistiram à cena, o governo boliviano não tardará a aceitar Goldberg de volta ao país. Hugo Chávez, presidente da Venezuela, deve seguir o mesmo caminho. "Eu quero ser seu amigo", afirmou Chávez, em inglês, ao estender a mão a Obama minutos antes da abertura da cúpula e depois de receber, do próprio presidente dos EUA, uns tapinhas nas costas.

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