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Boneschi (E) liderou grupo aqui, ele aparece ao lado do major português Alves Cardoso, em Ambriz, Angola Acervo Pessoal

Brasil atuou na guerra civil de Angola

Assessores militares lutaram em 1975 ao lado do FNLA contra governo pró-soviético

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2019 | 07h20

Um grupo de assessores com funções militares foi enviado em 1975 pelo Brasil para apoiar na guerra civil a ofensiva da Frente de Libertação Nacional de Angola (FNLA). Comandada por Holden Roberto, a FNLA lutava no norte do país contra o governo do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de orientação marxista, que controlava a capital Luanda.

Os assessores seriam precursores. Em caso de vitória de Roberto, o governo brasileiro enviaria tropas para Angola. Mas, liderado por Agostinho Neto, o MPLA venceria a guerra civil com o apoio de tropas cubanas e de assessores soviéticos. Presidido pelo general Ernesto Geisel, o Brasil seria o primeiro país a reconhecer o governo do MPLA, em 11 de novembro de 1975, dia da independência de Angola, então colônia de Portugal.

A ação brasileira na África permaneceu em sigilo por mais de 30 anos. EUA, Zaire (atual República Democrática do Congo) e África do Sul também apoiaram militarmente com homens, dinheiro e equipamentos a ofensiva do FNLA nos meses anteriores à independência.

A ajuda brasileira ao FNLA foi feita por 12 especialistas em explosivos arregimentados pelo Serviço Nacional de Informações (SNI). Eles trabalharam dando instrução às tropas de Roberto - que era cunhado do presidente do Zaire, Mobuto Sese Seko -, desminando terreno e preparando explosivos.

Seis deles permaneceram até a ofensiva final a Luanda e participaram da Batalha de Quifangondo, que decidiu a primeira fase da guerra civil. Liderados pelo policial civil carioca José Paulo Boneschi, o grupo contava com agentes que receberam instrução de contraguerrilha no Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha, no Rio, em 1973.

"Eles fizeram o curso (no Corpo de Fuzileiros) comigo. Conheci toda a turma. A ordem para operação em Angola veio do Geisel", afirmou o Doutor Pimenta. Capitão de Mar e Guerra reformado, Pimenta trabalhou por quase duas décadas no Centro de Inteligência da Marinha.

Quem desenrolou o novelo da participação brasileira na guerra civil foi a pesquisadora Gisele Lobato, do Centro de Estudos Internacionais do Instituto Universitário de Lisboa. Ela localizou no arquivo público do Rio o único documento oficial, por enquanto, que se tem notícia sobre a missão. Feito pela Brigada Paraquedista, em janeiro de 1976, ele afirma que Boneschi estava preparando um relatório sobre o tema para o SNI. O Estado refez os caminhos da pesquisadora e confirmou com três antigos integrantes dos órgãos de informações militares brasileiros e com um veterano da guerra em Angola a existência da missão.

Pedro Marangoni, veterano dos combates às portas de Luanda, mantém fotos que atestam a presença dos brasileiros em Angola. Marangoni encontrara os homens de Boneschi por acaso. Ele se havia reunido a uma companhia de 155 portugueses liderada pelo coronel Gilberto Santos e Castro e pelo major Álvaro Alves Cardoso, que deixaram o Exército do país após a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, para continuar a combater grupos marxistas nas colônias do império lusitano.

"Quando cheguei, em agosto, a Ambriz (norte de Angola), Boneschi já estava lá", diz Marangoni. Quem também testemunhou a presença dos brasileiros foi o então agente da CIA, John Stockwell, que a registrou em seu livro Em Busca de Inimigos, publicado em 1978.

CIA

Quando Stockwell publicou a foto de "um major brasileiro" ao lado de Holden Roberto, o Exército brasileiro negou que tivesse enviado a Angola qualquer grupo militar para intervir na guerra civil. De fato. O "major" na foto não era major. Era Boneschi, um policial da Guanabara, ligado ao um grupo de elite da Secretaria da Segurança Pública, que participava da repressão política de então.

"Ele (Boneschi) que prendeu o Cesar Benjamin, do MR-8", contou ao Estado o Doutor Pirilo, agente do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (Cisa). Pirilo morreu em 2018. Tanto na foto de Stockwell quanto nas imagens guardadas por Maragoni, Boneschi veste uma farda militar.

Stockwell estava em Angola como representante da CIA, que pôs US$ 16 milhões nas mãos de Mobutu para serem repassados à FNLA. A ideia era que a guerrilha tomasse a capital antes da data marcada por Portugal para conceder a independência, em 11 de novembro, e assim impedir que o país entrasse na órbita soviética. 

Pirilo confirmou a existência da missão e, embora não tivesse provas, acreditava que ela havia sido uma iniciativa do SNI, chefiado pelo general João Baptista Figueiredo, que sucederia a Geisel na Presidência.

O coronel Paulo César Amendola, secretário municipal de Ordem Pública do Rio, fundador do Bope e homem ligado a Boneschi e ao DOI (Destacamento de Operações de Informações), do 1.º Exército, confirmou que a missão era do conhecimento do SNI. "O Brasil não poderia se comprometer de início. Por isso, enviou a missão de forma clandestina. Eram precursores. O Boneschi me disse que, se a FNLA entrasse em Luanda, o Brasil enviaria tropas, com apoio americano, a Angola."

Boneschi estava am Ambriz desde julho de 1975. Em agosto, Marangoni e os comandos portugueses chegaram. Um mês depois, era vez da equipe de Boneschi. Metade voltou ao Brasil em outubro. O restante ficou até alguns dias após a independência, quando recebeu um rádio com a ordem de retirada. Maragoni conta que conversava com Boneschi, quando a ordem chegou. "Vi seu desgosto." O Brasil havia reconhecido o governo do MPLA. A missão secreta de ajuda ao FNLA chegara ao fim.

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    Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

    02 de junho de 2019 | 07h20

    A equipe de assessores brasileiros chegou em Angola pouco depois de as tropas de Holden Roberto (FNLA) terem conquistado Libongos, em Barra do Dande, a 32 km de Luanda. Roberto contava com 2 mil combatentes, divididos entre 156 comandos portugueses, dois batalhões do Exército do Zaire com artilharia e blindados Panhard, com canhões de 90 mm e 60 mm, 56 soldados do Exército da África do Sul com obuses e cerca de mil homens da Frente de Libertação Nacional de Angola (FNLA).

    Ao lado do líder rebelde, o agente da CIA John Stockwell encontrou o policial brasileiro José Paulo Boneschi, que se identificava como major do Exército brasileiro. Boneschi era o chefe da equipe de brasileiros. Ele chegara em julho e recebeu os colegas em setembro, pouco antes do início do avanço para Luanda. A capital era controlada pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) desde julho, quando expulsou de lá os rivais do FNLA e da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita).

    Roberto marcou a ofensiva final sobre Luanda para coincidir com as vésperas da declaração da independência, em 11 de novembro. Duas pontes e dois morros separavam as tropas do FNLA da planície que os conduziria até Luanda. A primeira das pontes, sobre a Lagoa de Panguila, foi tomada em 6 de novembro.

    Nesse dia, um dos brasileiros comandados por Boneschi foi ferido pelo estilhaço de uma granada disparada pela artilharia do MPLA. Boneschi e outro brasileiro - Theobaldo Lisboa - permaneceram ao lado da ponte com os portugueses, enquanto os blindados do Zaire lideravam o primeiro ataque ao Morro Quifangondo - repelido pelo MPLA e os cubanos. Estes haviam começado a desembarcar em Luanda. Era a Operação Carlota, o envio de tropas de Cuba que salvou o MPLA.

    "Há duas causas para a derrota em Quifangondo: os lançadores múltiplos BM-21 colocados pelos soviéticos em posição de combate nas vésperas da batalha e usados em força máxima, provocando o pânico nas tropas africanas, e a traição dos sul-africanos, que se retiraram em pleno combate", contou o piloto brasileiro Pedro Marangoni, que lutou com o FNLA.

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    Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

    02 de junho de 2019 | 07h20

    O Itamaraty monitorava os movimentos do governo argentino de María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, e temia sua relações com a União Soviética e com os regimes que surgiriam nas ex-colônias portuguesas, como Angola e Moçambique. Também incomodava a possibilidade de os países africanos votarem na ONU contra o Brasil na questão levantada pela Argentina em razão do projeto de construção da hidrelétrica de Itaipu.

    É o que mostram os documentos analisados pela pesquisadora Gisele Lobato. Ela lembra que o País foi o 80.º a reconhecer a independência de Guiné-Bissau e teve uma recepção fria quando o embaixador Ítalo Zappa tentou se aproximar de Samora Machel, líder da Frente de Libertação de Moçambique. 

    Em Angola, não havia um grupo dominante - o poder era disputado por Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), Frente de Libertação Nacional de Angola (FNLA) e União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), que constituíram um governo de transição para a independência.

    Em junho de 1975, o ministro da Educação do governo provisório de Angola, Samuel Abrigada (FNLA), visitou o Brasil e manteve contatos com ex-oficiais portugueses exilados. Aqui estava o general António de Spínola, que buscava apoio o brasileiro para agir em Portugal e nas colônias. O presidente Ernesto Geisel rejeitou, mas o Serviço Nacional de Informações (SNI) manteve contato com o general e com o FNLA.

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