Brasil avalia reação lenta a desvio de avião de Evo

Dilma delegou tema a assessor do Planalto e ao Itamaraty, mas eles esperaram pela Unasul

LISANDRA PARAGUASSU / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2013 | 02h04

Envolvida com a crise interna do País, a presidente Dilma Rousseff demorou a reagir ao incidente que envolveu o presidente da Bolívia, Evo Morales. Preocupada com reforma política e contingenciamento do orçamento, Dilma delegou ao assessor especial para política externa da presidência, Marco Aurélio Garcia, e ao Ministério das Relações Exteriores uma manifestação.

Ambos os lados preferiram esperar por uma reação conjunta da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) para dar uma resposta. No entanto, a reação rápida de outros chefes de Estado, como Cristina Kirchner, da Argentina, e Rafael Correa, do Equador, deixou a presidente para trás.

Já na noite de terça-feira, logo depois de governos de quatro países europeus terem recusado autorização para que o avião de Evo sobrevoasse seu território, Correa telefonou para Cristina para relatar o episódio.

A presidente argentina, por meio da sua conta no Twitter, afirmou: "Estão todos loucos. Chefes de Estado e seus aviões têm imunidade total, não pode haver esse grau de impunidade".

O presidente do Equador passou boa parte da noite e do dia seguinte criticando os europeus também pelas redes sociais. "Se isso não for um bom motivo para uma reunião da Unasul, não sei mais o que é. Destruiu-se o direito internacional", disse.

Nicolás Maduro, da Venezuela, que estava na mesma reunião de produtores de gás que provocou a presença de Evo na Rússia, também postou uma série de reclamações, terminando com um "Somos todos Bolívia". Até mesmo José Mujica, do Uruguai, se disse "indignado" com a situação.

Em trânsito entre a Ucrânia e a Holanda, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota estava fora de qualquer negociação e a situação estava sendo monitorada por seu interino, Eduardo Santos. Ao saber da crise, o chanceler ligou para seu colega boliviano, David Choquehuanca, para prestar a solidariedade brasileira.

No entanto, as reações acaloradas dos demais países convenceram o Planalto e o Itamaraty de que seria necessária uma resposta individual da presidente, além da nota divulgada pela Unasul.

O texto, preparado por Marco Aurélio Garcia, foi reestruturado pelo Ministério das Relações Exteriores para acentuar não apenas a questão do direito internacional, mas também a ação inaceitável dos países europeus contra um chefe de Estado.

Além da demora em tomar a decisão de dar uma resposta própria, a reação brasileira foi retardada pela agenda da presidente.

Apenas no meio da tarde Dilma deu atenção à crise boliviana e autorizou a divulgação do texto. Àquela hora, quase 17 horas, já haviam se espalhado as críticas à falta de ação brasileira.

No entanto, para mostrar a importância que dava ao tema, Dilma decidiu mandar para a reunião emergencial de Cochabamba não apenas o ministro interino das Relações Exteriores, mas também Garcia. O texto final com duras críticas aos europeus foi fechado na noite de quinta-feira com a participação e concordância brasileira.

De acordo com a versão boliviana, Espanha, França Portugal e Itália não autorizaram o sobrevoo por acreditar que o avião de Evo poderia estar transportando o ex-agente da CIA, Edward Snowden - que revelou um gigantesco esquema de vigilância de civis por parte da inteligência americana. Em Moscou, Snowden permanecia na área de embarque do aeroporto à espera de que algum país lhe concedesse asilo.

Na reunião de emergência, a Unasul qualificou de "inaceitável a restrição" dos países europeus e criticou, no documento final conjunto, a "falta de transparência sobre os motivos da decisão".

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