Brasil cala sobre espionagem de votos na ONU em 2010

Segundo a revista 'Época', EUA investigaram como votariam os membros do CS sobre sanções ao Irã; País seria um dos alvos

BERNARDO CARAM, LISANDRA PARAGUASSU, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2013 | 02h00

O governo brasileiro manteve ontem silêncio sobre as revelações, feitas no sábado pela revista Época, de que os EUA espionaram integrantes do Conselho de Segurança da ONU para saber como seriam seus votos em uma sessão sobre sanções ao Irã, em 2010. O Brasil é citado como um dos alvos da espionagem.

Embora a Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) admita em seu site manter um sistema de espionagem a governos estrangeiros "para proteger seus cidadãos", é a primeira vez que um documento cita um caso concreto desde que o ex-técnico da CIA, Edward Snowden, revelou a existência de um sistema de espionagem dos EUA a cidadãos comuns.

Em 2010, o então presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, anunciou que enriqueceria urânio em território iraniano, levantando suspeitas sobre o desenvolvimento de uma bomba atômica, um desrespeito ao que havia determinado a Agência Internacional de Energia Atômica da ONU. Os EUA pressionaram por sanções e recorreram ao Conselho de Segurança, onde o Brasil ocupava assento rotativo.

O documento obtido pela Época afirma que oito dos 15 integrantes do Conselho, entre eles o Brasil, foram espionados. A NSA descobriu como votaria cada um desses membros, o que facilitou a negociação para os americanos. Por 12 votos a favor, foi aprovada a sanção ao Irã. O Estado não conseguiu contatar a embaixada dos EUA em Brasília. O Itamaraty não se pronunciou até o fechamento desta edição.

Acordo. O fracasso internacional do acordo costurado entre Brasil e Turquia para que o Irã enriquecesse urânio fora do seu território foi uma das maiores decepções da diplomacia brasileira e do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois de seguir o script acordado e exaustivamente conversado com o governo americano, o presidente viu sua maior jogada diplomática ser denunciada como "ingenuidade" por Hillary Clinton, então chefe do Departamento de Estado dos EUA.

A reação americana, inesperada para o Itamaraty, azedou o relacionamento entre Lula e Barack Obama. Apesar de não ter desenvolvido com o democrata a boa relação que teve com George W. Bush, Lula ainda não tinha grandes diferenças com Obama. Depois desse episódio, o ex-presidente se sentiu atropelado pela "arrogância americana" e a relação só melhorou depois da visita de Obama ao Brasil, já no governo Dilma Rousseff.

O governo brasileiro guarda a carta enviada pelo presidente americano pedindo a ajuda do Brasil, justamente pela relação que Lula havia desenvolvido com o presidente Mahmoud Ahmadinejad. No documento, o pedido era que o Irã concordasse em enriquecer urânio fora de seu território para que não desenvolvesse tecnologia possível de ser transformada em armamento nuclear.

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