Andrew Harnik/AP
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Brasil, China, México, Rússia e Turquia ainda não parabenizaram vitória de Biden

Entre os principais parceiros dos Estados Unidos, os cinco foram os únicos que permaneceram em silêncio; com exceção de Eslovênia, todos os líderes aliados ideologicamente a Trump saudaram o triunfo do democrata

Levy Teles, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2020 | 14h28

No último sábado, 7,  Joe Biden foi eleito o novo presidente dos Estados Unidos, vencendo Donald Trump numa das disputas mais intensas dos país. Líderes de todo o mundo rapidamente reagiram ao triunfo do democrata. 

Mais de 48 horas depois do anúncio, no entanto, cinco países ainda não parabenizaram o ex-vice-presidente pela conquista: Brasil, China, México, Rússia e Turquia.

O Brasil é o único dos principais aliados ideológicos do governo Trump que não se pronunciou. Líderes de Eslovênia, Hungria, ÍndiaFilipinas e Polônia congratularam o novo presidente americano. 

E diferentemente de China, México, Rússia e Turquia, nem vice-presidente, porta-voz ou o Ministro de Relações Exteriores brasileiros comentaram qualquer coisa sobre o resultado presidencial dos EUA.

Em uma live surpresa no sábado, dia do anúncio da vitória de Biden, o presidente brasileiro, Jair Bolsonarosequer falou sobre o assunto ou deu qualquer informação sobre a eleição americana. Bolsonaro ainda apelou aos eleitores que não deixassem de votar e lamentou que a América do Sul tenha sido “pintada de vermelho.”

A esquerda, que parecia derrotada no continente, voltou ao poder na Argentina, com Alberto Fernández, eleito em 2019, e na Bolívia, com a vitória de Luis Arce no mês passado. O boliviano tomou posse no sábado e, assim como todos os outros líderes sul-americanos, parabenizou Biden.

Nas Américas, o silêncio ficou apenas no México. O presidente Andrés Manuel López Obrador comentou a eleição americana no sábado e preferiu a cautela. Afirmou que prefere “esperar até que todos os assuntos legais tenham sido resolvidos” - uma referência à postura de Trump, que reluta em aceitar o resultado e já manifestou que irá judicializar o processo.

Europa

Na Europa, Turquia e Rússia foram os únicos países em que os líderes não deram comentários sobre a eleição. 

Na Rússia, apenas o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, se pronunciou. "Pensamos que é mais apropriado esperar pela contagem de votos oficial", disse, em uma conferência. 

Quando questionado sobre o processo eleitoral de 2016, Peskov afirmou haver uma diferença. "Você pode ver que há certos procedimentos legais anunciados pelo atual presidente. Por isso as situações são diferentes e cremos que seja apropriado esperar por um anúncio oficial.”

Na Turquia, o presidente Recep Tayyip Erdogan, um dos parceiros mais próximos de Trump, preferiu o silêncio. Quem comentou as eleições foi o vice, Fuat Oktay. “Nada mudará para a Turquia”, afirmou. “Os canais de comunicação funcionarão como antes, mas claro que haverá um período de transição.”

Os maiores receios para os turcos é saber qual será a resposta americana para a Síria e sobre a questão curda. Oktay manifestou que pressionará os EUA para retirarem o apoio aos militantes curdos  - um grupo que teve papel importante no combate ao Estado Islâmico - na Síria. 

Todos os outros principais países do continente enviaram mensagens de saudação a Biden no mesmo dia. 

Foi assim com Angela Merkel, da Alemanha, Emmanuel Macron, da França Boris Johnson, do Reino Unido, mais próximo a Trump que os anteriores, que acumularam disputas com o presidente ao longo dos últimos quatro anos.

Os principais parceiros ideológicos de Trump no continente aguardaram um pouco mais para se pronunciar, mas parabenizaram Biden. O líder esloveno Janez Jansa foi o primeiro a falar, ainda no sábado. O primeiro-ministro, de extrema direita, atacou a imprensa por dar o resultado antecipadamente e disse que vai aguardar o resultado judicial. 

Ainda sem parabenizar Biden, Jansa adotou uma postura mais diplomática no dia seguinte. “Não importa qual o partido que o presidente seja, nada mudará no futuro”, tuitou. O presidente do país, Borut Pahor, por outro lado, congratulou Biden pela conquista.

O presidente da Polônia, Andrzej Duda, parabenizou nominalmente Biden no sábado, mas também manifestou que ainda resta aguardar o resultado do colégio eleitoral.

Viktor Orbán, da Hungria, esperou um dia para enviar a mensagem. Ele já havia afirmado anteriormente que Trump era o “plano A” do governo húngaro e a diplomacia democrata impunha um “imperialismo moral”, mas não deixou de saudar Biden. "Permita-me parabenizá-lo por uma campanha presidencial de sucesso", escreveu numa carta citada pela agência de notícias MTI.

Ásia

O líder da China, Xi Jinping, também optou pelo silêncio. Quem comentou foi o porta-voz do ministério de relações exteriores, Wang Wenbin. “Notamos que Biden declarou vitória. Entendemos que o resultado da eleição presidencial americana será determinado segundo a lei e procedimentos do país”, disse Wenbin, num comunicado à imprensa. Em 2016, Xi enviou felicitações a Trump no dia seguinte à seguinte eleição. 

A relação entre as duas principais potências mundiais foi abalada nos últimos quatro anos por guerras comerciais, disputas tecnológicas e pelo coronavírus. Uma aproximação durante o governo Biden, contudo, parece improvável. O democrata já afirmou que liderará uma campanha para "pressionar, isolar e punir a China" e deve seguir um caminho mais dedicado ao multilateralismo.

Na Índia, a conquista da vice-presidência por Kamala Harris, filha de mãe indiana, foi comemorada pelo líder Narendra Modi, outro importante parceiro de Trump, que também afirmou que a vitória de Biden foi "espetacular."

“Meus parabéns do fundo do coração para Kamala Harris! Seu sucesso é inédito e um tema de imenso orgulho para seus familiares, e para todos os indo-americanos. Estou confiante que a vibrante ligação Índia-EUA será ainda mais forte com o seu apoio e liderança”, tuitou.

Outros parceiros importantes dos EUA também se pronunciaram. O primeiro-ministro do Japão, Yoshihide Suga, parabenizou Joe Biden e Kamala Harris e afirmou que pretende fortalecer a relação para garantir paz, liberdade e prosperidade para a região.

O presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, mandou uma mensagem de felicitação pelo Twitter no sábado e falou a repórteres nesta segunda que trabalhará para não haver um vácuo na aliança entre os países e "entre o progresso para um processo de paz nas Coreias."

Nas Filipinas, o presidente Rodrigo Duterte parabenizou Biden no domingo e afirmou que pretende trabalhar de perto com o novo governo.

Oriente Médio

No Oriente Médio, os líderes de Israel e Arábia Saudita seguiram caminho similar a Duterte e aguardaram um dia para enviar mensagens ao novo presidente americano. “Parabéns Joe Biden e Kamala Harris. Joe e eu temos uma longa e próxima relação por quase 40 anos e eu sei que você será um grande amigo de Israel”, tuitou o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu.

A vitória de Biden é vista com receio no país, já que o democrata afirmou que poderia voltar a se aproximar do Irã.

Nos últimos meses, três países árabes, incluindo os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein, que, assim como Israel, também têm relações instáveis com o Irã, normalizaram as relações com Tel-Aviv, sob o patrocínio de Washington durante a gestão Trump

Na Cisjordânia, o líder palestino Mahmoud Abbas disse que estava "ansioso para trabalhar" com a equipe de Biden para "melhorar" as relações EUA-Palestina e garantir "justiça e dignidade" para os palestinos. 

A política pró-Israel de Trump fez com que os palestinos cortassem os laços com Washington. Segundo duas pesquisas recentes, 63% dos israelenses preferiam Trump a Biden (18%).

Logo após a mensagem para Biden, Netanyahu agradeceu pela aproximação americana a Israel ao longo de quatro anos de gestão. “Obrigado @realDonaldTrump pela amizade que você demonstrou ao Estado de Israel e a mim pessoalmente, por reconhecer Jerusalém e o Golã, por enfrentar o Irã, pelos acordos de paz históricos e por levar a aliança americano-israelense a patamares sem precedentes”, tuitou.

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, tuitou uma mensagem logo após o resultado do sábado em que chama a eleição de um "espetáculo" e um "exemplo da face horrível da democracia nos EUA."

O presidente iraniano, Hassan Rouhani, por sua vez, falou que o momento é do novo governo mudar a condução da política americana sobre o Irã durante o governo Trump. "Essa é uma oportunidade para o próximo governo dos EUA corrigir os erros e retornar para o caminho de aderir a compromissos internacionais e o respeito às regras globais", disse, em texto produzido pela imprensa estatal no domingo.

A família saudita apenas enviou a mensagem na noite do domingo, por comunicado da agência estatal SPA. O país, um dos dos principais aliados internacionais do governo Trump, parabenizou Joe Biden e Kamala Harris pela vitória na mensagem, que exalta a parceria entre os países.

“O rei Salman exaltou a distinta, história e próxima relação entre dois países amigos e seu povo que todos miram fortalecer e se desenvolver em todos os níveis.” /Reuters

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