Federico Parra | AFP
Federico Parra | AFP

Brasil condena morte de opositor e indica incômodo com a Venezuela

Em nota revisada pela presidente Dilma, Itamaraty afirma que é responsabilidade do governo Maduro garantir a lisura do processo eleitoral do dia 6; Garcia foi enviado a Caracas para comunicado

Tânia Monteiro e Isadora Peron / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2015 | 23h29

O governo brasileiro condenou, com veemência, em nota divulgada ontem pelo Itamaraty, a morte do político oposicionista venezuelano Luís Díaz, secretário-geral regional do partido Ação Democrática (AD), assassinado durante um comício na noite de quarta-feira. O tom da nota, que foi cuidadosamente escrita e aprovada pessoalmente pela presidente Dilma Rousseff, mostra uma mudança de posição do governo brasileiro em relação ao vizinho.

A nota cobra das autoridades da Venezuela a necessidade de “investigar os fatos e punir os responsáveis”, para que as eleições legislativas marcadas para o dia 6 transcorram de forma “limpa e pacífica”. Esse foi o segundo sinal dado pela presidente Dilma de que o Brasil não está confortável com episódios que vêm ocorrendo na Venezuela.

Na semana passada, Dilma mandou seu assessor internacional, Marco Aurélio Garcia, a Caracas portando uma carta assinada por ela, na qual pedia transparência nas eleições e se queixando do fato de o presidente Nicolás Maduro não ter se posicionado, oficialmente, em relação ao veto feito pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) venezuelano ao nome do ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Nelson Jobim, para comandar a missão de observadores da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Em razão do veto e das restrições impostas ao trabalho dos observadores pelas autoridades venezuelanas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que ia fazer um acompanhamento técnico das eleições locais, acabou desistindo de ir à Venezuela.

A dura nota e a ida de Garcia à Venezuela, não significam, no entanto, que o Brasil esteja caminhando para um confronto com os venezuelanos. Menos ainda que vá se aliar ao novo presidente da Argentina, Mauricio Macri, que quer usar a próxima reunião do Mercosul, no dia 21, para pedir a suspensão da Venezuela do bloco.

Segundo apurou o Estado, a presidente Dilma está muito “incomodada” com os últimos acontecimentos no país vizinho. A brasileira decidiu, então, de uma maneira diplomática, mandar vários recados de descontentamento a Maduro. “O Brasil é um país que atua para mediar conflitos”, disse o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência, Edinho Silva.

Prova de que a presidente Dilma, embora tenha feito gestos importantes de contestação às ações do governo venezuelano, está agindo com cautela nas suas relações diplomáticas, foi que designou o cônsul-geral do Brasil em Washington, embaixador Antonino Mena Gonçalves, para ser o representante brasileiro na missão da Unasul, para acompanhar as eleições.

Segundo diplomatas consultados pela reportagem, a indicação de Mena Gonçalves não significa endosso do processo eleitoral, mas apenas que aceitou mandar um auxiliar para o presidente da comissão. A ida de Marco Aurélio Garcia, no dia 20, foi, ao mesmo tempo, gesto de consideração e de alerta.

Na dura nota, cujo tom foi comemorado por diplomatas, o Itamaraty diz que se une à Unasul e “rechaça firmemente o recurso a qualquer tipo de violência que possa afetar o bom desenvolvimento do processo eleitoral”, e “insta as autoridades venezuelanas a investigar os fatos e punir os responsáveis”. Diz ainda que é responsabilidade de Maduro zelar pela lisura do processo eleitoral.

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