''Brasil cooperará com o Sudão''

Omar al-Bashir: Presidente do Sudão indiciado por crimes de guerra; condenado pelo TPI, sudanês questiona legitimidade do tribunal e exalta parceria com País no cenário internacional

Entrevista com

Jamil Chade, DOHA, O Estadao de S.Paulo

30 de março de 2009 | 00h00

O Sudão quer o apoio de países sul-americanos, em especial do Brasil, para "derrotar o colonialismo que quer fazer com que nossos cidadãos continuem oprimidos". As declarações são do presidente do Sudão, Omar al-Bashir, em entrevista exclusiva, por e-mail, ao Estado. Bashir, que desembarcou ontem em Doha para a cúpula da Liga Árabe, foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra em Darfur. A ONU estima que a guerra iniciada em 2003 já deixou 300 mil mortos. Na primeira entrevista a um jornal estrangeiro desde seu indiciamento, no dia 4, porém, ele não deu respostas a várias perguntas. Numa delas, o Estado questionou se ele tem a consciência tranquila. Sorridente e desafiador, Bashir chegou ontem a Doha para a cúpula dos países árabes e encontros com os presidentes sul-americanos. Seguem os principais trechos da entrevista.Por que a guerra eclodiu em Darfur? A razão dos conflitos no continente africano, Darfur não é exceção para isso, não é o pouco desenvolvimento ou a luta pela água ou recursos naturais, mas sim a luta entre tribos por terras agrícolas. Esses confrontos se pacificaram com o diálogo entre as tribos e organizações nacionais. Mas nos últimos anos, após a explosão de conflitos em países vizinhos, o tráfico de armas e as disputas no sul do Sudão se intensificaram. Pequenos conflitos aumentaram e se tornaram uma revolução contra o Estado. Precisamos enfrentar isso para proteger nossa segurança, paz e salvar nosso povo, especialmente porque essas organizações armadas que lideram a revolução estavam atacando as propriedades privadas, instituições governamentais e cidadãos sudaneses.Por que o governo reagiu com ataques considerados por muitos desproporcionais? Nosso país não fez nada fora dos limites do poder legal para proteger a segurança e paz. Apenas fomos atrás das pessoas que comprovadamente cometeram crimes. Nosso Judiciário é independente. Julgamos muitas pessoas que passaram dos limites legais, que estavam lutando em Darfur por interesses pessoais.Como o sr. avalia seu indiciamento pelo TPI? A constituição do TPI prevê o princípio de complementaridade e não a substituição da Justiça local. Temos que acrescentar, no entanto, que o Sudão não é membro do TPI. O governo tem tentando alcançar a paz em Darfur e assinou o acordo de Abuja, em 5 de maio de 2006. Desde então, tem surgido na região de Darfur diversas facções, mais de 30, mostrando o fracasso da comunidade internacional, que buscava uma liderança no conflito. Países poderosos mandaram mensagens desencorajadoras, em vez de apoiar a iniciativa do governo, que era a de se sentar com as facções para a busca de uma solução pacífica.O que o sr. espera da cúpula da Liga Árabe e dos países sul-americanos em relação a Darfur? Posições de apoio foram expressas em recentes resoluções do Movimento dos não-Alinhados, Grupo dos 77, Liga Árabe, União Africana e Organização da Conferência Islâmica. Países grandes e influentes como China, Rússia, além de muitos países asiáticos, a América do Sul, América Latina e alguns países europeus. Isso mostra que as decisões que virão desses encontros poderão ajudar as pessoas e apoiar o Sudão na derrota do colonialismo que quer fazer com que nossos cidadãos continuem oprimidos.O sr. espera um apoio do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva?O mundo expressou de forma clara a desaprovação para essas invenções que não são nem mesmo referendada pelas Nações Unidas ou pelas organizações regionais que estão trabalhando conosco para conquistar a paz no Sudão. Temos certeza da cooperação e da solidariedade do presidente Lula e do povo brasileiro para com os sudaneses.Como o sr. vê o futuro das relações entre o Brasil e seu governo?As relações entre Brasil e Sudão se desenvolveram muito em diversos campos, especialmente no comércio, economia e política. Isso melhorou com a abertura de embaixadas em ambos os países. Temos juntos a esperança de um mundo de paz, segurança, cooperação e respeito entre todos. Com isso tudo, também estamos dizendo que nossa relação tem raízes fortes e profundas no passado, já que já tivemos relações com o Brasil nos campos cultural e esportivo, das quais até hoje os sudaneses se lembram, como a visita do time do Santos, liderado pela lenda internacional do futebol, o rei Pelé (em 1973).O sr. apoiaria a candidatura do Brasil como membro do Conselho de Segurança da ONU?A discussão no momento é para uma reforma das Nações Unidas, como uma tentativa para que ela represente todos os povos e continentes do mundo em pé de igualdade, qualificando o Brasil como um país de liderança na região, por conta de sua economia e política.Israel teria atacado um comboio no Sudão que estaria levando armas ao Hamas. Como o sr. avalia isso?Qualquer ataque contra um Estado soberano está em violação do direito internacional e exige uma punição adequada. Quem é:Omar al-Bashir Chegou ao poder por meio de um golpe de Estado, em 1989, e desde então mantém-se intocável, resistindo a conflitos internos e embargos É casado com duas mulheres, sem filhos, e cultiva imagem de líder carismático

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