REUTERS/Mohamed Azakir
REUTERS/Mohamed Azakir

Brasil defende governo de união nacional no Líbano

Um mês após explosões, País defende reformas exigidas pela população e pela comunidade internacional para combater a corrupção, ampliar a transparência e destravar investimentos

Entrevista com

Jandyr Ferreira dos Santos, encarregado de negócios do Brasil no Líbano

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2020 | 03h00

Um mês após as explosões que deixaram 190 mortos, 6.500 feridos e mais de 300 mil desabrigados em Beirute, o governo brasileiro defende que a melhor solução para o Líbano neste momento é conseguir formar um governo de união nacional - logo após as explosões, o gabinete do primeiro-ministro Hassan Diab renunciou. 

O país de 6 milhões de habitantes vive a maior crise econômica e política de sua história e tem agora um novo primeiro-ministro que tenta formar um governo em tempo recorde para reconstruir uma nação que vê as taxas de pobreza avançarem.

"A única solução reside na montagem de governo de união nacional apto a realizar as grandes reformas exigidas pela população e reclamadas pela comunidade internacional", afirmou Jandyr Ferreira dos Santos, encarregado de negócios da Embaixada do Brasil em Beirute. O País está momentaneamente sem embaixador no Líbano. 

Na avaliação do diplomata, a missão brasileira chefiada pelo ex-presidente Michel Temer deixa um legado tangível - de união e conciliação - e outro intangível - de oferecer parcerias ao Líbano nas áreas que o país desejar. O governo brasileiro também defende a aprovação de normas para combater a corrupção, ampliar a transparência do sistema bancário e destravar investimentos na infraestrutura. 

De que forma a missão diplomática do Brasil conseguiu contribuir desde então com os objetivos que tinham sido propostos de pacificação e de apoio com medicamentos e insumos hospitalares?

O peso do Líbano no Brasil é decisivo. O País acolhe a maior diáspora no mundo de libaneses, estimada em 10 milhões de descendentes. Isso explica o empenho imediato do governo no auxílio à terra de origem de milhões de brasileiros, razão pela qual o presidente Bolsonaro escolheu o ex-presidente Michel Temer para chefiar a missão especial humanitária nos dias seguintes à tragédia de 4 de agosto. A presença de Temer deu-se por duas razões: pelo peso simbólico de um ex-chefe de Estado e pela ascendência libanesa.

O Brasil apresentou empenho em favor do auxílio imediato ao povo libanês com a doação de medicamentos, de insumos médico-hospitalares e de alimentos. E valeu-se de sua tradição interna de convivência pacífica entre os mais diversos grupos religiosos para transmitir a mensagem de unidade, tolerância e diálogo inter-religioso, sobretudo num momento particularmente desafiador da vida libanesa. 

Qual o legado da missão? 

O chamado do ex-presidente Temer ao diálogo, por meio do qual reuniu, na Residência oficial do Brasil em Beirute, representantes do espectro religioso libanês (maronitas, sunitas, xiitas, drusos) pode ser classificado como o principal legado intangível da missão humanitária.

O Brasil propõe uma inédita cooperação técnica com o Líbano voltada às áreas mais críticas no terreno, não somente em curto, mas em médio e longo prazos. Por meio da Agência Brasileira de Cooperação, o Brasil está oferecendo parcerias ao Líbano nas áreas em que ele, país receptor, escolher, ou seja, segundo as suas necessidades reais. Esse será o legado seguramente mais tangível.

Para além dos mortos, feridos e da devastação da explosão, o Líbano vê a sociedade empobrecer ao longo dos últimos meses. De que forma a comunidade internacional e o Brasil podem ajudar nesse processo de reconstrução?

Alguns dias após a tragédia, participei de reunião do ex-primeiro ministro Hassan Diab com representantes da comunidade internacional. Diab disse que “o Líbano já havia passado por várias tragédias, mas nunca havia estado sozinho”. A comunidade internacional veio ao socorro do Líbano imediatamente, com doações de diversos países, inclusive do Brasil, que possibilitaram compensar, em parte, os estoques de alimentos e de medicamentos destruídos pela explosão, bem como reequipar hospitais danificados. Houve, por exemplo, a doação brasileira de 300 caixas contendo ventiladores eletrônicos, equipamento importante no contexto da pandemia do covid-19.

E agora, qual o papel da comunidade internacional?

De agora em diante, a comunidade internacional prepara-se para auxiliar o Líbano a recuperar-se de forma mais estrutural, já que o país enfrenta grave crise econômica. O Brasil está em coordenação com as Nações Unidas para avaliar como poderia participar de esforços conjuntos de ajuda ao povo libanês.

Em paralelo, o País está avaliando cooperação bilateral com o Líbano na área de produção de alimentos. Uma vez que um novo gabinete ministerial libanês tenha sido instaurado, poderemos continuar nosso diálogo para ajudar em áreas em que os libaneses tenham necessidade e nós, brasileiros, tenhamos expertise.

Como o Brasil avalia as mudanças realizadas no governo libanês desde então e o que defende para o futuro?

O Brasil apoia todo o esforço do governo libanês voltado a atender, efetivamente, às reivindicações populares iniciadas pelos protestos de 17 de outubro de 2019. O Líbano enfrenta a mais grave crise política, econômica, financeira e social de sua história. O Brasil tem acompanhado com apreensão, desde o último ano, a seguida deterioração do quadro econômico local, e acredita que a única solução reside na montagem de governo de união nacional (ou de “missão”, como classificou o presidente francês Emmanuel Macron, em recente visita), apto a realizar as grandes reformas exigidas pela população e reclamadas pela comunidade internacional. 

Não há alternativa à aprovação, com a maior brevidade possível, de legislação voltada a equacionar o setor elétrico, há mais de duas décadas incapaz de prover o fornecimento contínuo de energia ao país, e de normas destinadas a combater a corrupção, ampliar a transparência do sistema bancário e do Banco do Líbano (o Banco Central), destravar investimentos na infraestrutura, além de medidas para suprimir o contrabando nas fronteiras e nos pontos de entrada do país, como portos e o aeroporto internacional de Beirute.

O Brasil espera que o universo político libanês aproveite a oportunidade para finalmente adotar as reformas, essenciais para o país sair da crise.

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