Brasil deve mediar apoio a Havana

Raúl teme que posição incendiária de bolivarianos mine diálogo com EUA

Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva comprometeu-se com Havana em atuar como uma espécie de "coordenador" dos aliados de Cuba na 5ª Cúpula das Américas, que será realizada em Trinidad e Tobago, entre sexta e domingo. O pedido foi entregue diretamente a Lula na quarta-feira pelo novo chanceler cubano, Bruno Rodríguez. O governo de Raúl Castro teme que posições incendiárias da Venezuela e de seus aliados - Bolívia, Equador e Nicarágua - em defesa de Cuba resultem no bloqueio da fresta de diálogo aberta pelo presidente dos EUA, Barack Obama. Essa tarefa deve mudar o comportamento de Lula em relação a sua atuação no encontro de 2005, em Mar del Plata, Argentina. Naquela ocasião, o líder brasileiro instigou e apoiou o projeto de seus colegas venezuelano, Hugo Chávez, e argentino, Néstor Kirchner, de enterrar de vez as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Com o Brasil movimentando-se com discrição, o trio saiu-se vitorioso. Desta vez, em Trinidad e Tobago, caberá a Lula a missão de tourear o líder bolivariano e seus aliados, com o cuidado de não instigar conflitos. O temor de Havana é compreensível e sustentado em fatos. No domingo passado, o embaixador venezuelano na Organização dos Estados Americanos (OEA), Roy Chaderton-Matos, exigiu a revisão da declaração final da 5ª Cúpula das Américas, cujo rascunho não traz nenhuma menção à questão de Cuba. A negociação do texto havia sido concluída no início do mês. No mesmo dia, em visita ao Japão, o próprio Chávez exortou os líderes latino-americanos a repudiar, em Trinidad e Tobago, a posição reticente do EUA à reinserção de Cuba no sistema interamericano e à eliminação do embargo econômico. O governo venezuelano convocou ainda, para os dias 14 e 15, em Caracas, uma reunião da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), mecanismo que tem participação cubana, com o objetivo de fechar uma estratégia comum para o encontro com os EUA. Desde 1962, por causa da revolução castrista, Cuba está suspensa da OEA - consequentemente, não faz parte da Cúpula das Américas. Mesmo que os EUA ensaiem uma flexibilização em Trinidad e Tobago, como é esperado, Havana está ciente de que a retomada do diálogo com Washington exigirá tempo e astúcia diplomática dos dois lados. Embora considere positivo que sua situação seja debatida na Cúpula das Américas, o governo de Raúl Castro não espera resultado efetivo de um encontro no qual não terá voz. "Há uma porção de líderes que querem entrar para a história como os que reaproximaram Cuba dos EUA e, de forma atabalhoada, podem fechar a porta para o diálogo", avaliou uma fonte da diplomacia brasileira. "O governo cubano não quer confusão no seu próprio terreno. Por isso, recorreram à liderança moral do Brasil." O apelo ao presidente Lula não significa o aval para que o Brasil atue como intermediário no diálogo entre Havana e Washington. Mas aplainar o terreno desse primeiro contato entre o presidente Obama e líderes latino-americanos é um objetivo que interessa ao governo brasileiro. POTENCIAL EXPLOSIVOEm Brasília, não há dúvidas de que a questão de Cuba tem potencial explosivo. Para o ministro Roberto Mangabeira Unger, da Secretaria de Assuntos Estratégicos, esse tema adquiriu importância desmesurada e converteu-se em uma "distração" na agenda hemisférica. "Ao mesmo tempo em que estão encalacrados com o Oriente Médio e com seus bancos, os EUA têm uma oportunidade sem precedente de sair das pequenas disputas comerciais e construir algo novo e positivo no hemisfério", afirmou o ministro. "Mas acho difícil que uma reunião multilateral, como a Cúpula das Américas, sirva para criar essa dinâmica."ENCONTROS ANTERIORES 1994, Alca - Por pressão americana, a cúpula foi realizada em Miami. O principal objetivo era propor aos países latino-americanos a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) 2001, impasse - Encontro foi dominado pelas tensões em torno da criação da Alca. O então presidente brasileiro, Fernando Henrique Cardoso, reage à pressão americana e estabelece critérios para que o Brasil aceite uma eventual participação no bloco 2005, sem rumo - Impasse entre Brasil e EUA se aprofunda. O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, com apoio da Argentina e da Venezuela, bloqueia definitivamente a criação da Alca 2009, Cuba - O fim do debate sobre a Alca abre espaço para nova agenda, com temas ambientais, energéticos, sociais e de direitos humanos. É nesse cenário que o debate sobre o embargo a Cuba pode ganhar espaço

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